Ácido fólico na gravidez: prevenção continua essencial, mas exige acompanhamento individualizado
Especialistas alertam que tanto a deficiência quanto o excesso da vitamina podem trazer riscos; avaliação clínica e laboratorial ajuda a definir a dose mais adequada para cada gestante
A suplementação de ácido fólico permanece como uma das principais estratégias para a promoção da saúde materno-infantil e para a prevenção de defeitos do tubo neural (DTN), malformações graves que afetam o desenvolvimento do cérebro e da medula espinhal do bebê. No entanto, evidências científicas mais recentes reforçam que a utilização desse nutriente deve ser conduzida de forma equilibrada e individualizada, evitando tanto a deficiência quanto o excesso.
O ácido fólico é a forma sintética do folato, também conhecido como vitamina B9. As recomendações mais consolidadas indicam a suplementação de 400 a 800 microgramas por dia, iniciada preferencialmente antes da concepção e mantida durante o primeiro trimestre da gestação. Nessa faixa de dose, os benefícios para a prevenção dos defeitos do tubo neural estão amplamente comprovados.
Em situações específicas, como histórico prévio de gestação com defeito do tubo neural, obesidade, diabetes ou cirurgia bariátrica, podem ser necessárias doses mais elevadas, entre 1 e 5 miligramas por dia, sempre sob avaliação profissional. Entretanto, especialistas destacam que o uso indiscriminado de altas doses não tem demonstrado benefícios adicionais consistentes para a maioria das gestantes e pode aumentar a exposição ao nutriente além do necessário.
Estudos recentes vêm investigando possíveis associações entre níveis muito elevados de ácido fólico durante a gravidez e alguns desfechos relacionados ao desenvolvimento infantil. Embora ainda não exista comprovação de relação causal entre o excesso de ácido fólico e o Transtorno do Espectro Autista (TEA), pesquisadores observam que tanto a deficiência quanto a superexposição ao nutriente podem estar associadas a resultados desfavoráveis em determinados contextos.
Esse comportamento é descrito por especialistas como uma relação em formato de “U”: níveis insuficientes aumentam riscos já conhecidos, enquanto concentrações excessivas também podem estar relacionadas a efeitos indesejáveis. Por isso, o objetivo não é simplesmente aumentar a ingestão de ácido fólico, mas garantir que ela ocorra na medida adequada para cada mulher.
Outro aspecto importante é a interação entre o ácido fólico e a vitamina B12. Estudos apontam que desequilíbrios entre esses nutrientes podem influenciar o desenvolvimento fetal e placentário. A deficiência de vitamina B12, especialmente quando associada ao uso excessivo de ácido fólico, tem sido apontada como um fator que merece atenção durante o acompanhamento pré-natal.
Nesse cenário, o monitoramento laboratorial pode desempenhar papel relevante. Exames como folato sérico, folato eritrocitário, vitamina B12, homocisteína e hemograma auxiliam os profissionais de saúde a avaliar o estado nutricional da gestante e a ajustar a suplementação quando necessário. Essa estratégia é especialmente importante para mulheres que utilizam doses elevadas ou apresentam fatores de risco que exigem acompanhamento mais próximo.
A individualização do cuidado tem ganhado destaque entre pesquisadores e profissionais de saúde. Em vez de manter altas doses de suplementação durante toda a gestação, diversas revisões científicas defendem a adequação da dose de acordo com o perfil clínico, nutricional e laboratorial de cada paciente.
No Brasil, atualmente, as apresentações industrializadas de ácido fólico disponíveis na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) incluem comprimidos de 5 mg e solução oral de 0,2 mg/mL. Para gestantes que necessitam apenas das doses habituais recomendadas, a formulação líquida pode representar uma alternativa mais adequada para o uso racional do medicamento.
Pesquisadores também estudam o potencial do 5-metiltetrahidrofolato, forma biologicamente ativa do folato, como alternativa ao ácido fólico tradicional. Apesar do interesse crescente, ainda não há evidências suficientes para confirmar superioridade clínica dessa estratégia para todos os desfechos gestacionais.
As evidências disponíveis reforçam que a suplementação de ácido fólico continua sendo uma medida indispensável para a saúde materna e fetal. Ao mesmo tempo, indicam que a melhor abordagem é aquela baseada na avaliação individual da gestante, com doses adequadas às suas necessidades, monitoramento quando necessário e orientação profissional qualificada ao longo de todo o pré-natal.
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