Antidepressivo sertralina pode auxiliar no tratamento de fungos resistentes
Pesquisa identifica que o medicamento provoca a desregulação metabólica dos fungos, o que pode abrir caminho para novas estratégias contra as doenças que provocam
Pesquisadores do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP estão investigando o potencial antifúngico da sertralina, medicamento amplamente utilizado no tratamento de depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Os resultados foram reunidos em artigo publicado na revista científica Genetics and Molecular Biology. Os estudos mostram que o fármaco interfere simultaneamente em diferentes processos celulares dos fungos, desequilibrando seu funcionamento, o que na prática compromete a sobrevivência desses microrganismos.
A descoberta ganha relevância diante do crescimento global das infecções fúngicas resistentes aos tratamentos convencionais. O estudo integra um Projeto Temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e foi coordenado pela professora Nilce M. Martinez-Rossi em colaboração com o professor Antônio Rossi Filho, que atuou como pesquisador principal do estudo, além de Mayara Itala Geronimo de Azevedo em sua pesquisa de pós-doutorado.
O interesse científico pela sertralina como antifúngico surgiu após observações clínicas indicarem que pacientes em tratamento psiquiátrico apresentavam redução de episódios recorrentes de candidíase. A partir disso, diferentes estudos passaram a investigar os efeitos do medicamento em fungos como Candida auris, Candida albicans, Cryptococcus neoformans, Aspergillus fumigatus e Trichophyton rubrum.
Esta ação recebe o nome de drug repurposing. O termo, já popularizado pela ciência, trata da descoberta clínica sobre os benefícios de uma medicação para o uso não convencional em outras terapias, ou seja, novas estratégias para tratamentos de outras patologias ou infecções, de acordo com a eficácia observada. Neste contexto, um antidepressivo (sertralina) que é utilizado em uma nova abordagem (o antifúngico).
Para Rossi, o avanço surge como uma alternativa para ampliar as opções antifúngicas disponíveis. “O reposicionamento de fármacos oferece uma alternativa estratégica, pois permite investigar novas aplicações para moléculas que já passaram por etapas importantes de avaliação clínica, como toxicidade, farmacocinética e segurança em humanos”, afirma Rossi.
Na prática isso reduz o tempo, o custo e o risco no desenvolvimento de novas terapias. No caso da sertralina, os estudos demonstram que ela possui atividade antifúngica relevante e atua sobre múltiplos alvos celulares dos fungos, o que pode dificultar o surgimento de resistência, de acordo com Rossi.