Dos boticários às farmácias modernas: como nasceu a profissão farmacêutica no Brasil
Da prática nas boticas ao reconhecimento da Farmácia como profissão de saúde
A história da Farmácia no Brasil começou em 1549, com a chegada da primeira missão oficial portuguesa ao território. Entre os integrantes da expedição liderada pelo primeiro governador-geral do Brasil, Thomé de Souza, estava o boticário português Diogo de Castro. Considerado o primeiro boticário oficialmente estabelecido no país, ele foi trazido pela Coroa Portuguesa para suprir uma necessidade urgente da população, que dependia da chegada de embarcações europeias para ter acesso a medicamentos e outros produtos utilizados no tratamento de doenças.
Naquele período, não existiam farmácias como as conhecemos hoje. As embarcações que cruzavam o Atlântico costumavam transportar pequenas boticas portáteis, mantidas por cirurgiões-barbeiros ou outros integrantes da tripulação, contendo drogas vegetais, minerais e preparados utilizados no atendimento dos enfermos. Com a instalação da administração portuguesa na colônia, surgiu a necessidade de manter um profissional dedicado ao preparo e à conservação desses medicamentos.
Os jesuítas também tiveram papel importante na assistência à saúde durante os primeiros séculos da colonização. Nos colégios e missões religiosas, organizavam enfermarias e preparavam medicamentos para indígenas, colonos e religiosos. Entre eles destacou-se o padre José de Anchieta, que atuou em Piratininga, atual cidade de São Paulo, sendo reconhecido por historiadores como um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento das práticas farmacêuticas na região.
O aprendizado da profissão era totalmente prático. Como ainda não existiam escolas de Farmácia, os futuros boticários aprendiam o ofício diretamente nas boticas e, após adquirir experiência, eram submetidos a exames realizados por representantes do físico-mor do Reino, autoridade responsável por fiscalizar o exercício das atividades ligadas à saúde. A aprovação garantia a chamada carta de examinação, documento que autorizava o exercício da profissão.
A partir de 1640, a Coroa Portuguesa autorizou que as boticas funcionassem também como estabelecimentos comerciais, desde que fossem dirigidas por boticários aprovados. Embora muitos desses profissionais possuíssem amplo conhecimento prático sobre medicamentos, a formação ainda era baseada na experiência e não exigia ensino formal, característica comum às profissões da área da saúde naquele período.
A profissionalização da Farmácia começou a ganhar força no século XIX. Em 1809 foi criada, dentro do curso de Medicina, a primeira cadeira de Matéria Médica e Farmácia. Poucos anos depois, a reforma do ensino médico de 1832 instituiu os primeiros cursos farmacêuticos vinculados às Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro. A partir desse momento, o exercício da profissão passou a depender de formação e título reconhecidos oficialmente.
Outra mudança importante ocorreu em 1857, quando o Decreto nº 2.055 consolidou a substituição gradual do termo "botica" por "farmácia" na legislação brasileira, acompanhando a evolução científica da profissão e diferenciando os estabelecimentos dirigidos por farmacêuticos habilitados daqueles mantidos por pessoas sem formação específica.
Ao longo da segunda metade do século XIX, a Farmácia também passou por uma revolução científica. A tradicional farmácia galênica, baseada principalmente na preparação artesanal de medicamentos a partir de plantas e outras matérias-primas naturais, começou a dividir espaço com a farmácia química, impulsionada pelos avanços da Química e da produção industrial. Nesse cenário, destacou-se o farmacêutico João Luiz Alves, considerado um dos pioneiros da fabricação industrial de extratos fluidos no Brasil.
Atualmente, a profissão farmacêutica vai muito além da manipulação e da dispensação de medicamentos. O farmacêutico atua em áreas como análises clínicas, indústria farmacêutica, vigilância sanitária, pesquisa, atenção farmacêutica e acompanhamento de pacientes. Nas farmácias comunitárias, esse profissional é responsável por orientar o uso correto dos medicamentos, prevenir interações, identificar riscos e contribuir para o uso racional dos tratamentos.
Especialistas destacam que a farmácia moderna deixou de ser apenas um local de venda de medicamentos para se consolidar como um estabelecimento de saúde. Serviços como acompanhamento farmacoterapêutico, vacinação, testes rápidos, educação em saúde e monitoramento do tratamento ampliaram o papel do farmacêutico na promoção da saúde, na prevenção de doenças e na melhoria da qualidade de vida da população.