Pesquisa brasileira transforma pele de tilápia em tratamento para lesões oculares de animais

Desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, tecnologia utiliza biomaterial rico em colágeno para auxiliar na recuperação da córnea de cães e gatos

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Uma pesquisa desenvolvida no Brasil está transformando um subproduto da indústria pesqueira em uma alternativa para o tratamento de lesões oculares em animais. Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) desenvolveram uma técnica que utiliza a pele da tilápia-do-nilo na recuperação da córnea de cães e gatos, com resultados promissores na cicatrização e na preservação da visão.

A inovação é fruto de estudos conduzidos no Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), vinculado à Faculdade de Medicina da UFC, em Fortaleza (CE). O trabalho integra uma linha de pesquisas brasileiras que investiga aplicações médicas da pele de tilápia desde 2014, inicialmente voltada ao desenvolvimento de curativos biológicos para queimaduras e outras lesões.

Na aplicação oftalmológica, a equipe desenvolveu uma matriz dérmica acelular da pele de tilápia, um biomaterial obtido após um processo laboratorial que remove as células do peixe e preserva uma estrutura rica em colágeno. Diferentemente da pele in natura, essa membrana passa por preparação específica para utilização cirúrgica.

O material funciona como um enxerto biológico, sendo aplicado sobre a região lesionada da córnea. Sua estrutura oferece suporte à regeneração do tecido, favorecendo a reepitelização e a recuperação da transparência ocular.

Resultados da pesquisa nacional

A aplicação da tecnologia foi investigada na dissertação de mestrado da médica-veterinária Mirza de Souza Melo, no Programa de Pós-Graduação em Medicina Translacional da UFC, sob orientação do professor Manoel Odorico de Moraes Filho.

O estudo avaliou 60 cães com lesões na córnea e comparou a matriz de tilápia com outros materiais utilizados em procedimentos oftalmológicos. Os resultados indicaram tempo de recuperação otimizado e desempenho clínico igual ou superior ao dos grupos de comparação, além de cicatrização com preservação da transparência corneana.

Segundo informações divulgadas pela universidade em junho de 2023, mais de 400 animais já haviam sido submetidos ao procedimento, com resultados positivos e relatos de recuperação da visão.

A pesquisa também avançou para a oftalmologia felina. Em setembro de 2023, pesquisadores publicaram um relato de caso sobre a aplicação da matriz dérmica de tilápia em uma gata adulta de quatro anos. O trabalho descreveu resultados favoráveis na recuperação da córnea, mas a aplicação em felinos ainda necessita de estudos mais amplos.

Tecnologia nacional com potencial de aplicação

Além dos resultados clínicos, a pesquisa brasileira apresenta potencial econômico e científico. A utilização da pele de tilápia, um subproduto da atividade pesqueira, abre possibilidades para o desenvolvimento de biomateriais nacionais e pode reduzir a dependência de membranas biológicas importadas, que apresentam custos elevados.

A iniciativa demonstra como a pesquisa realizada em universidades públicas brasileiras pode transformar recursos disponíveis no país em soluções para a saúde humana e animal.

Embora novos estudos sejam necessários para ampliar as evidências e consolidar as indicações clínicas, o desenvolvimento da UFC representa um avanço da ciência nacional e uma nova perspectiva para o tratamento de animais com lesões graves na córnea.