Farmacêutica antecipa queda de preços com fim da patente da semaglutida
Laboratório corta valores do Wegovy e Rybelsus em até 35% antes da entrada de genéricos, enquanto mercado brasileiro se prepara para desvalorização de 60% a partir de 20 de março
Faltando menos de três semanas para a expiração da patente da semaglutida no Brasil, prevista para 20 de março, a Novo Nordisk anunciou nesta segunda-feira (2) uma redução agressiva nos preços dos medicamentos Wegovy e Rybelsus. A estratégia do laboratório dinamarquês visa manter a base de pacientes diante da iminente entrada de concorrentes genéricos que podem reduzir os custos do tratamento em até 60%.
A medida mais impactante envolve o Wegovy, versão da semaglutida indicada para emagrecimento. A empresa passou a oferecer a dose inicial de 0,25 mg gratuitamente para novos pacientes, desde que a prescrição médica inclua também a dosagem de manutenção do tratamento. O benefício é limitado ao estoque disponível e representa uma economia imediata de R$ 875 no e-commerce ou R$ 925 em farmácias físicas, valores anteriores da apresentação.
Para o Rybelsus, versão oral do medicamento, a Novo Nordisk reestruturou completamente a política de preços. A compra de duas caixas de qualquer dosagem (3 mg, 7 mg ou 14 mg) passa a custar R$ 565 no canal digital e R$ 615 em lojas físicas, uma queda significativa comparada aos valores anteriores que chegavam a R$ 1.130 no e-commerce para o combo mais acessível (3 mg + 3 mg).
Cenário de transição
A movimentação da Novo Nordisk ocorre em um momento de transição para o mercado farmacêutico brasileiro. Com a queda da patente da semaglutida, farmacêuticas nacionais como Prati-Donaduzzi, Cimed e EMS já anunciaram preparativos para lançar versões genéricas. Estimativas do setor apontam que os preços podem cair entre 35% e 60% com a entrada desses concorrentes, democratizando o acesso a um tratamento que atualmente custa entre R$ 1.300 e R$ 1.800 mensais nas doses terapêuticas completas.
A estratégia de descontos antecipados busca criar barreiras de fidelidade. Ao oferecer a dose inicial gratuita do Wegovy, a empresa tenta garantir que o paciente complete o ciclo de tratamento com o produto de marca antes que alternativas mais baratas cheguem às prateleiras. O modelo adotado para o Rybelsus, com descontos progressivos na compra de combos, segue lógica similar: maximizar o lock-in do paciente no ecossistema da marca.
Impactos para farmácias e pacientes
Para o varejo farmacêutico, a redução de preços representa um dilema. Embora a menor barreira de entrada possa aumentar o volume de vendas, as margens sobre produtos de marca tendem a comprimir com descontos desse nível. A tendência é que farmácias compensem a queda de rentabilidade em medicamentos de referência com aumento da conversão em genéricos assim que disponíveis, categoria que historicamente oferece margens mais atrativas para o canal.
Para os pacientes, a mudança é inequívoca. Atualmente, cerca de 70% dos usuários de semaglutida no Brasil pagam pelo tratamento de forma integral, sem cobertura de planos de saúde. A redução imediata de 35% nos preços do Rybelsus e a possibilidade de início gratuito com o Wegovy aliviam o orçamento doméstico, mas a verdadeira transformação deve ocorrer após 20 de março, quando a competição com genéricos deve pressionar os valores para patamares ainda mais acessíveis.
O movimento "Mais Leve para Viver", campanha que embala a iniciativa de descontos, tenta reposicionar a discussão para além do preço, enfatizando saúde e individualização do tratamento. No entanto, a realidade do mercado indica que, a partir do fim deste mês, a decisão de permanecer com a marca original ou migrar para genéricos será, para a maioria dos pacientes, uma questão de aritmética financeira.