Conselho Federal de Farmácia exige respeito à categoria após declarações preconceituosas de deputado
Presidente do Conselho Federal de Farmácia rebate fala de Kim Kataguiri e defende atuação do profissional como 'barreira de proteção' contra automedicação irresponsável
Na última segunda-feira (2), durante a votação do requerimento de urgência do PL 2158/23, que trata da venda de medicamentos em supermercados, o deputado federal Kim Kataguiri (UNIÃO) protagonizou um episódio de profundo desrespeito à profissão farmacêutica. Em vídeos que circulam nas redes sociais, o parlamentar não apenas questionou a relevância do profissional farmacêutico para a segurança na dispensação de medicamentos, como demonstrou desconhecimento alarmante sobre a natureza do cuidado farmacêutico ao afirmar que compraria qualquer medicamento mesmo se abordado por um farmacêutico durante a orientação sobre riscos.
A fala do deputado revela mais do que um desentendimento pontual sobre legislação sanitária: expõe uma visão reducionista e perigosa que reduz o farmacêutico a um mero obstáculo burocrático entre o cidadão e o medicamento. Trata-se de uma distorção grave da realidade profissional. O farmacêutico não está nas farmácias para proibir, mas para proteger. Sua função vai muito além da simples dispensação: é garantir a segurança do paciente, prevenir interações medicamentosas, identificar contraindicações, orientar sobre posologia, esclarecer efeitos adversos e promover o uso racional de medicamentos.
A presença do profissional farmacêutico é, na verdade, uma barreira de proteção contra a automedicação irresponsável, prática que coloca em risco milhares de vidas todos os anos no Brasil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a automedicação inadequada é responsável por significativa parcela de intoxicações e eventos adversos evitáveis. O farmacêutico é o último elo de segurança antes que um medicamento chegue às mãos do paciente — e esse elo salva vidas.
Diante das declarações, o presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Walter Jorge João, reagiu com a firmeza necessária: "O deputado demonstra completo desconhecimento da realidade da assistência farmacêutica e do papel estratégico do farmacêutico na segurança do paciente. Não se trata de proibir, mas de orientar com base em evidências científicas. O desrespeito demonstrado não ofende apenas a categoria: ofende a inteligência do cidadão que busca segurança no acesso aos seus medicamentos. Exigimos respeito à ciência, à regulamentação sanitária e, acima de tudo, à vida da população brasileira."
A categoria farmacêutica, representada pelos conselhos regionais e federal, optou deliberadamente por não reproduzir o vídeo original em seus canais oficiais. A decisão visa evitar que o conteúdo ganhe ainda mais visibilidade e proporção, privilegiando o debate técnico e institucional em detrimento da viralização de discursos que desinformam e colocam em risco a saúde pública.
O episódio serve como alerta: a tentativa de flexibilizar normas sanitárias sob o argumento de "liberdade de mercado" não pode ignorar as consequências reais para a saúde da população. A presença do farmacêutico não é um entrave ao comércio: é garantia de que o medicamento certo chegará ao paciente certo, na dose certa, com a orientação necessária para que o tratamento seja efetivo e seguro.
A categoria exige respeito. A sociedade exige segurança.
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