FDA barra estudos sobre vacinas e reacende debate sobre transparência científica
Agência teria interrompido a publicação de trabalhos sobre imunizantes contra a covid-19 e o herpes-zóster após questionar as conclusões apresentadas, segundo reportagem da Reuters
Autoridades da Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de medicamentos e alimentos dos Estados Unidos, barraram a publicação de estudos científicos relacionados à segurança de vacinas contra a covid-19 e o herpes-zóster. A informação foi confirmada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA (HHS) e divulgada inicialmente pelo jornal The New York Times, com repercussão internacional pela agência Reuters.
De acordo com o porta-voz do HHS, Andrew Nixon, os trabalhos foram retirados porque apresentavam “afirmações amplas” que, segundo a avaliação do governo, não eram sustentadas pelos dados científicos disponíveis. Em nota enviada à Reuters, Nixon afirmou que o FDA tomou a decisão para “preservar a integridade do processo científico”.
O episódio ocorre em um momento de forte transformação na política de saúde pública norte-americana. Desde o retorno de Donald Trump à presidência, o governo vem adotando uma postura mais crítica em relação às vacinas e às estratégias utilizadas durante a pandemia de covid-19. Parte dessas mudanças está ligada à atuação do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., conhecido por questionar a segurança e a eficácia de diferentes imunizantes.
A repercussão do caso aumentou porque os estudos barrados não apontavam novos riscos graves relacionados às vacinas. Pelo contrário: segundo a apuração do The New York Times, as pesquisas reforçavam a segurança dos imunizantes analisados, incluindo vacinas contra a covid-19 e contra o herpes-zóster, doença causada pela reativação do vírus da catapora e que pode provocar dores intensas e complicações neurológicas.
Especialistas ouvidos pela imprensa norte-americana demonstraram preocupação com os impactos da decisão sobre a transparência científica e a confiança da população nas autoridades sanitárias. Pesquisadores alertam que a divulgação de estudos revisados e baseados em evidências é considerada parte essencial do processo científico, especialmente em temas sensíveis como vacinação e saúde pública.
O caso também se soma a outras medidas recentes adotadas pelo governo norte-americano na área da imunização. Em agosto do ano passado, o Departamento de Saúde anunciou o cancelamento de aproximadamente US$ 500 milhões em investimentos destinados a projetos relacionados a vacinas de mRNA, tecnologia utilizada em imunizantes contra a covid-19 desenvolvidos durante a pandemia.
Os cortes atingiram 22 projetos financiados pela Biomedical Advanced Research and Development Authority (BARDA), órgão responsável por apoiar pesquisas estratégicas em saúde e preparação para emergências sanitárias. A decisão gerou críticas de cientistas e representantes da indústria farmacêutica, que defendem a continuidade dos investimentos em inovação tecnológica.
Outro episódio recente que aumentou a tensão entre autoridades sanitárias e a comunidade científica ocorreu em junho, quando um painel ligado ao Centers for Disease Control and Prevention (CDC), com apoio de Kennedy, recomendou a retirada do timerosal das vacinas contra a gripe.
O timerosal é um conservante à base de mercúrio utilizado há décadas em alguns imunizantes multidose para evitar contaminações. Diversos estudos científicos e organizações internacionais de saúde afirmam que não existem evidências de que a substância cause danos à saúde nas quantidades utilizadas em vacinas.
Entre os fabricantes citados nas discussões recentes estão a Pfizer e a Moderna, responsáveis por vacinas de mRNA contra a covid-19, além da britânica GSK, fabricante da Shingrix, vacina indicada para prevenção do herpes-zóster.
A decisão do FDA reacendeu o debate sobre o papel das agências reguladoras, a independência científica e os impactos políticos sobre decisões relacionadas à saúde pública. Para especialistas, a credibilidade das instituições depende da transparência dos dados, da publicação de pesquisas revisadas e da manutenção de políticas baseadas em evidências científicas consolidadas.