Risco de morte em hospitalização é duas vezes maior para indivíduos vulneráveis no espectro autista
Pesquisa da Fiocruz, Harvard e Autism Speaks analisou dados de 10 anos e identificou maior vulnerabilidade entre mulheres, jovens e pessoas em situação de baixa renda
Publicada no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, uma pesquisa da Fiocruz, da Universidade de Harvard e do Instituto Autism Speaks (Estados Unidos) aponta que pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) apresentam o dobro do risco de óbito durante uma internação hospitalar, especialmente entre as mulheres. A análise utilizou dados administrativos de saúde vinculados aos registros do sistema de assistência social (CadÚnico), uma vez que taxas de mortalidade mais elevadas entre indivíduos com TEA têm sido associadas a fatores de risco como baixa renda, um dos critérios para fazer parte do programa.
Conduzido por pesquisadores do Centro de Integração de Dados e Conhecimento para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), o estudo (intitulado Taxas de mortalidade entre indivíduos hospitalizados com transtorno do espectro autista ao longo de um período de 10 anos na Coorte Brasileira de 100 Milhões) incluiu 948 indivíduos hospitalizados com diagnóstico de TEA, comparando com os indivíduos não hospitalizados, entre os anos de 2008 e 2018. Os resultados também indicaram que os mais jovens, com idade entre 11 e 24 anos, estão no grupo que mais morreu em internação, assim como pessoas com TEA sem comorbidade. Para chegar aos resultados encontrados, foram cruzados os dados do CadÚnico com os do Sistema de Informação Hospitalar (SIH) e do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM).
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento, que podem englobar alterações na comunicação, na interação social e no comportamento. Quando comparadas com a população em geral, pessoas com TEA têm um risco aumentado para determinadas doenças - como respiratórias e neurológicas -, aumentando assim as chances de internação hospitalar.
De acordo com o último Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), de 2022, foram identificados 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico TEA, correspondendo a 1,2% da população brasileira. A maioria dos indivíduos no espectro foram homens e na faixa entre 5 e 9 anos. Apesar do aumento no diagnóstico na população negros (pardos e pretos), ainda assim a prevalência é maior em brancos.
Causas das mortes
Ao analisar os dados de óbito, o estudo evidencia que pessoas hospitalizadas com TEA morreram com maior frequência por doenças respiratórias (24%) e neurológicas (20%), enquanto indivíduos não hospitalizados morreram com maior frequência por doenças circulatórias (27,8%) e neoplasias (17,1%).
Problemas gastrointestinais, embora não estejam entre as maiores causas de morte, são uma das comorbidades que mais levam indivíduos com TEA à hospitalização. Uma explicação para esse fenômeno pode ser a seletividade alimentar observada com frequência nesse grupo, o que pode levar à constipação, refluxo e diarreia crônica, entre outros sintomas.
Questões neurológicas também são comuns em indivíduos com o transtorno, como epilepsia, por exemplo, levando a maior internação.
Desafio ao sistema de saúde
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza atendimento gratuito para pessoas com TEA através da Rede de Atenção Psicossocial há aproximadamente 20 anos, porém, ainda há uma oferta insuficiente desses serviços, tornando os hospitais um recurso comum de última instância. Segundo a pesquisadora associada do Cidacs/Fiocruz Bahia, Camila Bonfim, que faz parte do estudo, esses achados refletem o baixo acesso da assistência à saúde, indicando uma lacuna no cuidado a indivíduos com TEA, especialmente os que vivem em contexto de vulnerabilidade social. Os hospitais e a ambulatórios estão nos grandes centros urbanos, não nos interiores e zonas rurais, o que torna pessoas com TEA de determinadas localidades ainda mais vulneráveis por ter menos acesso à saúde.
“A gente precisa prestar atenção a esse público, na fragilidade dessa rede de atenção psicossocial para o cuidado das pessoas com autismo, porque o que a gente está vendo é que elas estão agravando questões de saúde”, explicou a pesquisadora.
Essa rede de atenção está disponível em todas as regiões, mas as grandes cidades e capitais, especialmente aquelas localizadas nas regiões Sul e Sudeste, têm uma maior concentração de serviços especializados e hospitais equipados para atender pessoas com deficiência, incluindo TEA.
“É importante reconhecer também que este estudo é um dos poucos que incluem apenas indivíduos hospitalizados com TEA que estão cadastrados no CadÚnico, o principal sistema de solicitação de benefícios sociais como o Programa Bolsa Família, e, portanto, representa o grupo de menor renda da população brasileira”, acrescenta Camila.
Atenção para as comorbidades
Apesar do grupo com maior risco de morte não possuir comorbidade, esse fato requer uma atenção maior. Esses resultados podem ser explicados por algumas hipóteses, como o grupo sem TEA não apresentar dificuldades de comunicação semelhantes às dos indivíduos com TEA, o que pode levá-los a buscar atendimento médico com mais frequência e ter mais registros de hospitalização devido a comorbidades e óbitos.
Outro fator pode ser que no grupo com TEA, as hospitalizações devido a comorbidades foram registradas principalmente como diagnósticos secundários e, como essa informação não é obrigatória no SIH, pode refletir uma entrada de dados inadequada.
A presença de comorbidades no grupo com TEA pode levar a uma maior utilização dos serviços de saúde, o que poderia ter contribuído para um risco reduzido de mortalidade em comparação com aqueles que não foram hospitalizados por comorbidade. Ao priorizar o treinamento de equipes de saúde da família para detectar comorbidades precocemente, o sistema de saúde não apenas previne internações evitáveis, como também assegura uma gestão financeira mais eficiente.