Corticoides sem orientação podem aumentar o risco de glaucoma e comprometer a visão

Conselho Federal de Farmácia alerta para os perigos da automedicação e reforça a importância do acompanhamento profissional no uso desses medicamentos

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Muito utilizados no tratamento de alergias, inflamações, crises respiratórias, doenças dermatológicas e problemas oculares, os corticoides estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo. Embora sejam fundamentais para o controle de diversas condições de saúde, o uso inadequado dessas substâncias pode trazer consequências graves, incluindo o aumento do risco de glaucoma e perda irreversível da visão.

Diante desse cenário, o Conselho Federal de Farmácia (CFF) reforça a importância do uso racional dos medicamentos e alerta a população sobre os riscos da automedicação com corticoides, especialmente quando utilizados por períodos prolongados sem acompanhamento médico e farmacêutico.

O alerta também é compartilhado por entidades da área oftalmológica. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), Roberto Murad Vessani, o uso indiscriminado de medicamentos contendo corticoides tem se tornado uma preocupação crescente para os especialistas, devido à relação entre essas substâncias e o aumento da pressão intraocular, principal fator de risco para o desenvolvimento do glaucoma.

Estima-se que cerca de 1,7 milhão de brasileiros convivam com a doença. Entre pessoas com mais de 40 anos, a prevalência varia entre 2,5% e 3,5%, aumentando progressivamente com o avanço da idade.

Uma doença silenciosa

O glaucoma é uma doença que afeta o nervo óptico, estrutura responsável por transmitir ao cérebro as informações captadas pelos olhos. Em muitos casos, a doença evolui de forma silenciosa, sem sintomas perceptíveis nas fases iniciais.

Quando não diagnosticado e tratado adequadamente, o glaucoma pode provocar perda gradual do campo visual e, em casos mais avançados, levar à cegueira. Os danos causados ao nervo óptico são irreversíveis, o que torna a prevenção e o diagnóstico precoce fundamentais.

Como os corticoides afetam os olhos

Os corticoides atuam reduzindo processos inflamatórios do organismo. Por isso, são amplamente utilizados em colírios, comprimidos, pomadas, sprays nasais, inalações e medicamentos injetáveis.

O problema surge quando essas substâncias são utilizadas de forma contínua ou sem o devido acompanhamento. Com o uso prolongado, os corticoides podem alterar o mecanismo natural de drenagem do humor aquoso, líquido responsável por manter a pressão adequada dentro dos olhos.

Quando essa drenagem é prejudicada, ocorre o acúmulo de líquido no interior do globo ocular, elevando a pressão intraocular. Se essa pressão permanecer elevada por um período prolongado, podem ocorrer lesões no nervo óptico e o desenvolvimento do glaucoma.

Segundo especialistas, pessoas que já possuem a doença ou apresentam predisposição genética são ainda mais vulneráveis. Estima-se que cerca de 90% dos pacientes com glaucoma sejam sensíveis aos efeitos dos corticoides sobre a pressão ocular.

Crianças e idosos exigem atenção especial

Entre os grupos que merecem maior cuidado estão crianças e idosos. No caso das crianças, especialistas alertam para situações em que pais ou responsáveis utilizam repetidamente colírios com corticoides para aliviar sintomas de alergias oculares sem avaliação médica adequada.

Além do aumento da pressão intraocular, o uso prolongado desses medicamentos pode favorecer o desenvolvimento precoce de catarata e outras complicações oftalmológicas.

Já entre os idosos, o risco é ampliado porque muitas doenças crônicas frequentemente exigem tratamentos que incluem corticoides. Como a prevalência do glaucoma aumenta significativamente após os 40 anos e praticamente dobra a cada década de vida, o monitoramento da saúde ocular torna-se ainda mais importante nessa população.

Riscos vão além da visão

Os efeitos adversos dos corticoides não se limitam aos olhos. Quando utilizados de forma inadequada, esses medicamentos também podem provocar aumento da glicose no sangue, agravamento do diabetes, hipertensão arterial, retenção de líquidos, ganho de peso, enfraquecimento dos ossos, alterações hormonais e maior suscetibilidade a infecções.

Por esse motivo, o CFF destaca que nenhum medicamento deve ser utilizado por iniciativa própria ou por indicação de pessoas sem habilitação para orientar tratamentos.

O farmacêutico desempenha papel fundamental na promoção do uso seguro dos medicamentos, orientando os pacientes sobre a forma correta de utilização, possíveis efeitos adversos, interações medicamentosas e a necessidade de acompanhamento clínico quando necessário.

Mobilização por mais conscientização

Preocupadas com o aumento dos casos relacionados ao uso inadequado de corticoides, a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) encaminharam uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ao Ministério da Saúde, ao Congresso Nacional e a diversas entidades médicas.

O objetivo é ampliar o debate sobre medidas que possam aumentar a segurança no acesso a esses medicamentos e fortalecer ações de conscientização voltadas tanto aos profissionais de saúde quanto à população.

As entidades também defendem a importância do monitoramento regular da pressão intraocular em pacientes que utilizam corticoides por períodos prolongados, especialmente aqueles pertencentes aos grupos de risco.

Uso racional salva a visão

Para o Conselho Federal de Farmácia, a principal forma de prevenção continua sendo a informação de qualidade e o uso racional dos medicamentos.

Diante de sintomas persistentes, alergias recorrentes ou doenças que exijam tratamento prolongado, a orientação é buscar avaliação médica e contar com o acompanhamento do farmacêutico. O uso correto dos corticoides permite que seus benefícios sejam aproveitados com segurança, reduzindo o risco de complicações que podem comprometer não apenas a saúde ocular, mas a qualidade de vida dos pacientes.

Em saúde, a automedicação nunca deve substituir o cuidado profissional. Quando se trata da visão, o diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado podem fazer toda a diferença para preservar um dos sentidos mais importantes do corpo humano.