Pesquisa brasileira identifica vírus com potencial contra bactéria resistente a antibióticos

Bacteriófago estudado por pesquisadores da Unesp e da USP conseguiu bloquear o crescimento de cepas de Klebsiella em laboratório

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Pesquisadores brasileiros avançaram na busca por alternativas para combater bactérias resistentes aos antibióticos. Um estudo conduzido por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade de São Paulo (USP) caracterizou um novo bacteriófago, chamado KP47, com capacidade de infectar e destruir determinadas bactérias do complexo Klebsiella pneumoniae.

Publicado em julho de 2026 na revista científica BMC Microbiology, o trabalho contou também com a participação da Manchester Metropolitan University, no Reino Unido, e teve financiamento da Fapesp, do CNPq e do CEpid B3. O bacteriófago foi originalmente isolado de uma amostra de esgoto no Reino Unido e posteriormente estudado e caracterizado pelos pesquisadores.

Bacteriófagos são vírus que infectam bactérias. Ao contrário dos vírus que causam doenças em seres humanos, eles utilizam as células bacterianas para se multiplicar e podem provocar a morte da bactéria. Essa característica vem sendo estudada como uma possível ferramenta contra microrganismos que desenvolveram resistência a vários antibióticos.

No caso do KP47, os pesquisadores identificaram um comportamento chamado lítico, no qual o vírus destrói a bactéria após infectá-la. O estudo também encontrou evidências de que o bacteriófago produz uma depolimerase, uma enzima capaz de atuar sobre a cápsula que protege algumas bactérias e que pode facilitar sua destruição.

Os resultados, porém, ainda estão longe de representar um tratamento disponível para pacientes. Nos experimentos, o KP47 infectou duas das nove cepas do complexo Klebsiella pneumoniae avaliadas. Os autores apontam que são necessários novos estudos, inclusive em modelos vivos, para verificar a eficácia e a segurança da estratégia e avaliar seu potencial para uma futura aplicação clínica.

A pesquisa ganha importância diante do avanço mundial da resistência antimicrobiana. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório no mundo era resistente a antibióticos em 2023. A organização estima ainda que a resistência bacteriana esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes em 2021.

Nesse cenário, pesquisas brasileiras como a do KP47 ajudam a ampliar o conhecimento sobre os bacteriófagos e apontam novas possibilidades para enfrentar bactérias cada vez mais difíceis de tratar. Ainda há um longo caminho entre um resultado promissor obtido em laboratório e uma terapia aprovada, mas a descoberta reforça o papel da ciência brasileira na busca por soluções para um dos principais desafios da saúde mundial.