Atuação farmacêutica amplia segurança na hormonioterapia da população trans
Experiência realizada em ambulatório de Maceió (AL) mostra como ampliar acesso ao cuidado e qualificar a assistência farmacêutica
Implantar consultório farmacêutico dentro de um ambulatório dedicado à população trans. A proposta, que pode parecer simples, representa uma importante mudança na forma de oferecer cuidado em saúde. Em Maceió (AL), a iniciativa aproximou o farmacêutico dos usuários e ajudou a transformar a assistência relacionada à hormonioterapia em um acompanhamento mais próximo, seguro e humanizado.
A experiência foi desenvolvida na Clínica da Família Dr. João Fireman e relatada na edição de 2026 da revista Experiências Exitosas de Farmacêuticos no Sistema Único de Saúde (SUS), do Conselho Federal de Farmácia (CFF). O ambulatório de transição de gênero da unidade oferece serviço desde 2022 como forma de atender às necessidades específicas de uma população que ainda enfrenta dificuldades para encontrar serviços de saúde preparados para oferecer acolhimento, acompanhamento adequado e acesso seguro à terapia hormonal.
Segundo Leonildo José da Silva, um dos integrantes da equipe do ambulatório, muitas vezes esses pacientes enfrentam barreiras no acesso aos serviços de saúde e podem chegar ao atendimento com receio de sofrer preconceito ou de não serem compreendidos em suas necessidades. “O consultório farmacêutico possibilita estabelecer uma relação de confiança e acompanhar de forma mais próxima o tratamento, orientando sobre o uso correto dos medicamentos, possíveis efeitos adversos, interações e a importância da adesão ao tratamento”, observa.
Na unidade, os farmacêuticos passaram a realizar acompanhamento farmacoterapêutico, registro das informações em protocolo próprio de anamnese e organização dos fluxos relacionados à dispensação. O atendimento personalizado se torna especialmente relevante no caso do uso dos hormônios, considerando a complexidade da hormonioterapia, que exige acompanhamento e orientação sistemáticas.
“Mais do que acompanhar medicamentos, acredito que o cuidado farmacêutico nesse contexto significa olhar para a pessoa de forma integral, respeitando sua identidade, suas necessidades e sua individualidade. É um trabalho que fortalece o vínculo com o paciente e contribui para uma assistência mais humanizada, segura e inclusiva”, conclui Leonildo José da Silva.
O acompanhamento contínuo e personalizado também permite identificar dificuldades precocemente, esclarecer dúvidas e contribuir para que o tratamento seja realizado de forma mais segura e adequada. “O reflexo disso é percebido até pela participação mais ativa dos próprios pacientes no tratamento”, afirma.
Resultados
Dados reunidos pela equipe mostram a dimensão alcançada pelo serviço. Em levantamento realizado entre janeiro e dezembro de 2024, foram acompanhadas 265 pessoas trans, sendo 144 homens trans (54%) e 121 mulheres trans (46%). Mais da metade dos usuários tinha entre 20 e 29 anos, e a maior parte residia em Maceió.
O perfil identificado também chama atenção para aspectos sociais que precisam ser considerados no cuidado. Quase metade dos usuários tinha renda familiar entre um e três salários mínimos, enquanto 30,2% estavam desempregados. A maioria residia na capital alagoana, com concentração significativa em bairros periféricos.
Entre as terapias identificadas no acompanhamento estavam o valerato de estradiol, entre mulheres trans, e a testosterona, entre homens trans. O acompanhamento farmacêutico permite conhecer como esses medicamentos estão sendo utilizados e identificar situações que mereçam atenção da equipe de saúde.
O consultório farmacêutico funciona como mais uma porta de entrada para o acompanhamento em saúde e reforça a atuação multiprofissional. Os resultados apresentados pelos profissionais indicam que a presença do farmacêutico ampliou o acesso à hormonioterapia segura e monitorada e contribuiu para uma assistência mais humanizada.
Acesse a revista “Experiências Exitosas de Farmacêuticos no SUS” e leia esta e outras experiências inspiradoras: https://revistas.cff.org.br/experienciasexitosas