Brasil reforça vigilância após confirmar primeiro caso de sarampo de 2026

Infecção importada em bebê de seis meses expõe vulnerabilidade nas coberturas vacinais e alerta para riscos da Copa do Mundo em países com surtos ativos

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O Ministério da Saúde brasileiro manteve nesta semana o alerta máximo contra o sarampo após confirmar o primeiro caso da doença em território nacional em 2026. A infecção foi detectada em uma criança de seis meses residente em São Paulo, que contraiu o vírus durante viagem à Bolívia, país que enfrenta surto ativo da doença. O caso reacende preocupações sobre a manutenção do status de área livre de sarampo reconquistado pelo Brasil em 2024, após perder a certificação em 2019 devido à circulação endêmica do vírus.

A confirmação ocorre em um momento de explosão de casos em escala continental. Segundo alerta epidemiológico da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em apenas dois meses de 2026 as Américas já registraram 7.145 infecções confirmadas, número que representa quase metade dos 14.891 casos contabilizados em todo o ano de 2025. O continente também somou 29 mortes no ano passado. Os dados apontam para uma aceleração preocupante da transmissão, impulsionada principalmente por coberturas vacinais insuficientes.

Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), explica que o Brasil mantém protocolos rigorosos de resposta para evitar que casos importados se transformem em transmissão sustentada dentro do território nacional. Assim que a suspeita foi notificada em São Paulo, equipes de saúde iniciaram o chamado bloqueio vacinal, identificando todas as pessoas que tiveram contato com a paciente e aplicando imunizantes preventivamente nos contatos diretos. Força-tarefa também realiza busca ativa de casos suspeitos na comunidade, visitando residências no entorno e varrendo unidades de saúde e laboratórios em busca de sintomas não notificados.

A estratégia inclui ainda a flexibilização das normas de vacinação. Crianças entre seis meses e um ano que vivem na área de risco ou tiveram contato com o caso suspeito recebem a dose zero, medida extra de proteção que não substitui as duas doses previstas no calendário básico aos 12 e 15 meses. Se a infecção for confirmada, paciente e comunidade permanecem sob monitoramento por três meses antes do encerramento oficial da ocorrência.

Apesar dos protocolos, especialistas alertam para lacunas na proteção coletiva. Dados preliminares indicam que, embora 92,5% dos bebês tenham recebido a primeira dose da vacina tríplice viral em 2025, apenas 77,9% completaram o esquema na idade correta. A cobertura mínima necessária para evitar surtos é de 95% com duas doses. Todas as pessoas com até 59 anos sem comprovante de imunização completa devem atualizar a carteira de vacinação.

O cenário internacional adiciona camadas de complexidade à vigilância brasileira. Estados Unidos, México e Canadá, os três países com maior número de casos no continente, sediarão em junho e julho a Copa do Mundo de futebol, evento que deve movimentar milhões de turistas internacionais, incluindo brasileiros. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já iniciou campanhas informativas sobre vacinação em aeroportos e portos, reconhecendo que o trânsito intenso pode funcionar como vetor de disseminação do vírus.

Além do turismo, o Brasil enfrenta desafios estruturais de vigilância. O país possui extensas áreas turísticas que recebem estrangeiros, como o litoral, a Amazônia, o Pantanal e Foz do Iguaçu, além de uma vasta fronteira terrestre com cidades gêmeas em constante movimentação populacional. O diretor do PNI enfatiza que a manutenção do certificado de área livre depende de vacinação contínua e ações específicas em regiões com coberturas mais baixas, incluindo campanhas intensificadas nas zonas de fronteira.

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, transmitida pelo ar, que pode evoluir para complicações graves como pneumonia, encefalite e cegueira. A vacina tríplice viral, disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde, é a principal ferramenta de prevenção, com eficácia de 97% após duas doses. A perda do status de eliminação regional pelas Américas em novembro de 2025, após 12 meses de transmissão sustentada no Canadá, sinaliza a fragilidade dos avanços conquistados e a necessidade de coordenação internacional para conter a reintrodução do vírus.