Pesquisa inovadora de farmacêutico sobre diagnóstico da doença de Alzheimer recebe prêmio da ABN

Trabalho premiado pela Academia Brasileira de Neurologia investiga a proteína tau na saliva como possível biomarcador da doença

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“Para mim, foi um feito inédito estar ali no ambiente de neurologistas, sendo farmacêutico, embora cientista.” A declaração do professor e pesquisador Gustavo Alves Andrade dos Santos traduz a importância de uma conquista que ultrapassa o reconhecimento individual e evidencia a contribuição da Farmácia para o avanço do conhecimento científico em diferentes áreas da saúde.

O farmacêutico conquistou o segundo lugar no Prêmio de Melhores Artigos da revista Dementia & Neuropsychologia (DN) 2026, promovido pela Academia Brasileira de Neurologia (ABN). O trabalho premiado, intitulado “Investigação da proteína tau salivar como um indicador diagnóstico para demência do tipo Alzheimer”, foi desenvolvido em colaboração com outros pesquisadores e investiga a possibilidade de utilizar a saliva como ferramenta auxiliar na identificação da doença de Alzheimer.

A cerimônia de premiação foi realizada na quinta-feira, 8 de outubro, durante o XXXII Congresso Brasileiro de Neurologia, no Rio de Janeiro (RJ), que ocorreu entre os dias 6 e 10 de outubro de 2026. Segundo Gustavo, a Academia Brasileira de Neurologia avaliou os trabalhos publicados na área de neurologia em 2024 e 2025 para selecionar os artigos reconhecidos na premiação.

O resultado destaca a presença do farmacêutico na produção científica e demonstra como a formação em Farmácia pode contribuir para investigações complexas, que envolvem desde a compreensão dos mecanismos das doenças até o desenvolvimento de novas ferramentas diagnósticas.

Da pesquisa acadêmica à possibilidade de um teste diagnóstico

O estudo premiado é resultado de uma trajetória de estudo iniciado durante o doutorado de Gustavo. “Minha pesquisa vem desde o doutorado, onde começamos a verificar a possibilidade de identificar Alzheimer pela saliva; projeto inédito pelo qual fiz muitas apresentações fora do Brasil. No pós-doutorado, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, avançamos muito, inclusive nos resultados, onde demonstramos a viabilidade do uso da saliva para diagnóstico de Alzheimer. Nesse momento, estou em uma parceria para desenvolver um kit comercializável”, relata.

A pesquisa investigou a proteína tau, especialmente sua forma fosforilada, conhecida como pTAU, em 76 participantes distribuídos entre grupos de controle e de pacientes com Alzheimer. O objetivo foi verificar se as concentrações dessa proteína na saliva poderiam apresentar associação com a doença.

Os resultados mostraram concentrações mais elevadas de tau fosforilada entre os participantes com Alzheimer. Nos idosos sem a doença, os níveis foram um pouco menores, enquanto nos participantes mais jovens sem Alzheimer as concentrações foram consideravelmente inferiores. Já os níveis de tau total apresentaram valores semelhantes entre os três grupos avaliados.

Esses achados apontam para o potencial da tau fosforilada como biomarcador salivar e sustentam a continuidade das investigações. Os autores, contudo, ressaltam que são necessários novos estudos para confirmar a utilidade do método.

Saliva pode facilitar futuras investigações

A busca por biomarcadores capazes de auxiliar no diagnóstico da doença de Alzheimer é relevante diante dos desafios envolvidos na identificação da condição, especialmente em suas fases iniciais. A possibilidade de analisar a saliva desperta interesse por se tratar de uma amostra de coleta simples e não invasiva, com potencial para reduzir custos e facilitar a realização de exames.

É importante destacar, porém, que os resultados apresentados não significam que o método já esteja validado para uso diagnóstico na prática clínica. A confirmação de sua precisão e de sua aplicabilidade depende de pesquisas adicionais, com validação em diferentes populações e condições de atendimento.

A parceria mencionada por Gustavo para o desenvolvimento de um kit comercializável representa uma etapa promissora dessa trajetória, aproximando a investigação acadêmica da possibilidade de aplicação tecnológica. Para que essa perspectiva se concretize, ainda será necessário cumprir as etapas de desenvolvimento e validação pertinentes.

Além de Gustavo Alves Andrade dos Santos, assinam o trabalho os doutores Francisco de Assis Carvalho do Vale e Valéria Paula Sassoli Fazan.

A conquista reforça o papel do farmacêutico como pesquisador e produtor de conhecimento, capaz de atuar em diferentes campos científicos e integrar equipes multidisciplinares. Da pesquisa básica ao desenvolvimento de tecnologias em saúde, a Farmácia contribui para ampliar as possibilidades de diagnóstico e cuidado, com impactos potenciais na qualidade de vida da população.

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Reconhecimento à pesquisa multidisciplinar

A Dementia & Neuropsychologia é uma publicação científica de caráter multidisciplinar vinculada à Academia Brasileira de Neurologia. A revista divulga pesquisas, revisões e relatos de casos relacionados às ciências cognitivas e comportamentais, com foco em áreas como epidemiologia clínica, neurociências básicas e aplicadas. Seu escopo abrange contribuições de diferentes campos do conhecimento, incluindo neurologia, psiquiatria, geriatria, neuropsicologia e fonoaudiologia. A publicação está disponível em: https://abneuro.org.br/dementia-neuropsychologia/.

A abertura da publicação a pesquisadores de diferentes formações reforça a importância da colaboração entre áreas profissionais para ampliar a compreensão das doenças e desenvolver soluções que possam beneficiar a população.