Medicamento promissor para Alzheimer chega às farmácias em junho, mas preço preocupa

Lecanemabe chega com a promessa de atrasar o avanço da doença

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A aprovação do medicamento intravenoso Lecanemabe pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) traz nova esperança para pacientes e familiares que vivem com o Alzheimer no Brasil. O medicamento, indicado para os primeiros sinais da doença, deve chegar às farmácias no fim de junho com o nome comercial de Leqembi e é uma das principais apostas da ciência para atrasar o avanço dos sintomas.

O Lecanemabe é um tipo de anticorpo feito em laboratório que age direto sobre a beta-amiloide, uma proteína ligada ao desenvolvimento do Alzheimer. Segundo o professor Júlio César Moriguti, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, “a beta-amiloide é uma substância patológica que deposita no cérebro e que é o gatilho para iniciar a doença”.

Os estudos com o anticorpo foram publicados no fim de 2023 na revista científica New England Journal of Medicine e mediram principalmente a capacidade mental dos pacientes durante 18 meses. De acordo com Moriguti, os pesquisadores compararam pacientes que usaram o medicamento com outros que receberam placebo (substância sem propriedades medicinais ativas) usando escalas específicas de avaliação clínica.

“O grupo que usou a droga e o grupo que usou placebo tiveram uma diferença de menos 0,45 numa escala de 18 pontos. Isso aparentemente não se traduziu em benefícios perceptíveis para o paciente e/ou para os cuidadores”, explica. Ainda assim, o especialista destaca que os resultados chamam atenção porque o medicamento consegue tirar a amiloide do cérebro. “Essas drogas reduzem muito essa carga de amiloide, de tal forma que passa a ter uma carga semelhante a quem não tem doença”, afirma.

Para o professor, o medicamento é um grande avanço da ciência, mas ainda tem limites. “Eu entendo que representa um avanço real por ter conseguido remover a amiloide, mas há de se entender qual seria o melhor momento de se utilizar essa droga e para quais pacientes. A adoção ampla dessas terapias ainda deve ser muito cautelosa.”

Além de uma eficácia abrangente ainda ser discutida, os efeitos colaterais também preocupam os especialistas. Segundo Moriguti, os principais riscos vistos nos estudos foram inchaço e sangramentos no cérebro. “O principal risco é de sangramento. As hemorragias cerebrais ou micro-hemorragias podem ser sintomáticas ou não”, ressalta. Ele completa que as complicações ligadas a problemas neurológicos aconteceram em cerca de 27% dos pacientes que usaram o medicamento.

Outro ponto que o pesquisador destaca é que os testes foram feitos em um ambiente muito controlado e com pacientes bem específicos. “Quando popularizar essa droga, ela não vai ser usada dessa forma, porque vamos ter pacientes com várias comorbidades”, afirma.

Acesso ao medicamento

Apesar de a Anvisa já ter aprovado o medicamento, a discussão agora é sobre o acesso ao tratamento. O Lecanemabe deve custar cerca de R$ 20 mil por mês, um valor que a maior parte da população brasileira não tem condições de pagar.

Segundo Moriguti, o SUS ou os planos de saúde ainda estão longe de incluir esse medicamento. “A população que poderia ser beneficiada com isso é bastante grande, tanto no Brasil quanto no mundo inteiro. Eu creio que, para o SUS incorporar um tratamento desse e para os planos de saúde pagarem, eles precisam ter um pouco mais de certeza dessa melhora.”

Além do preço alto, o tratamento exige uma estrutura médica complicada. Antes de receber o medicamento na veia, os pacientes precisam fazer exames como PET-CT (um tipo de tomografia), ressonância magnética, testes de biomarcadores e testes genéticos. Depois, ainda é preciso acompanhamento constante em centros especializados.

“Precisa ter um centro de infusão, precisa de ressonância, PET-CT e até neurocirurgião de prontidão para intervir em casos de hemorragia ou grande edema”, explica o professor. “Ou seja, é para lugares bastante restritos.”

Mesmo cuidando de pacientes com Alzheimer e pesquisando a doença na USP, Moriguti diz que ainda não receitou esse tipo de tratamento. “Eu ainda não tive o convencimento de que, ao aplicar essas drogas, vou trazer mais benefícios do que malefícios para o paciente. Isso sem pensar em preço. Quando você coloca o preço na jogada, a restrição vai ser ainda maior.”