UFJF e UFMG pedem desculpas por uso de corpos do Hospital Colônia de Barbacena
Em notas públicas, as instituições reconheceram a gravidade da prática, ligada a um período marcado por violações de direitos humanos na assistência psiquiátrica em Minas Gerais
A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) publicou nesta segunda-feira, 18 de maio, uma carta aberta na qual pede desculpas à sociedade brasileira pelo recebimento de 169 corpos do Hospital Colônia de Barbacena entre 1962 e 1971, usados em aulas de anatomia. Na manifestação, a instituição afirma que a prática aviltou a dignidade das pessoas mortas no hospital e anuncia medidas de reparação simbólica, como ações educativas, evento sobre o tema, apoio à criação de memorial e pesquisas documentais sobre a relação entre a universidade e o Colônia.
A nota da UFJF também informa que, desde 2010, o Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas passou a trabalhar exclusivamente com doações voluntárias de corpos, por meio do programa Sempre Vivo. Segundo a universidade, a iniciativa inclui ações de conscientização voltadas à comunidade e aos estudantes da área da saúde, com defesa explícita da dignidade humana.
A UFMG já havia se manifestado no mês anterior. Em declaração pública divulgada pela Faculdade de Medicina, a universidade pediu desculpas por ter adquirido, no século 20, cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena. A instituição afirmou que a manifestação é acompanhada por ações de memória em parceria com grupos da luta antimanicomial, pela restauração do livro histórico de registro de cadáveres e pela inclusão do tema nas disciplinas de anatomia.
No mesmo comunicado, a UFMG lembrou que mantém desde 1999 o programa “Vida após a Vida”, voltado à doação voluntária e consentida de corpos para o ensino da anatomia. A universidade diz que o modelo substituiu a antiga dependência de corpos não reclamados e passou a orientar o trabalho acadêmico dentro de parâmetros legais e éticos.
O episódio recoloca em debate um capítulo doloroso da história da saúde mental no país, marcado por segregação, estigma e violência institucional. Ao retomar o assunto publicamente, UFJF e UFMG afirmam buscar não apenas reconhecer a responsabilidade histórica, mas também reforçar o compromisso com a reforma psiquiátrica, a memória e os direitos humanos.