Jovens estão tomando medicamentos para ansiedade para se sentirem embriagados

Uso recreativo de medicamentos para combater a ansiedade e buscar desinibição cresce entre jovens e acende alerta para riscos de dependência, overdose e automedicação

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Há dois anos, uma mudança silenciosa começou a tomar forma nos armazéns do norte da Inglaterra e em festas universitárias da China. Jovens que antes levavam garrafas de cerveja para socializar agora carregam comprimidos de pregabalina, um medicamento indicado para epilepsia e dores neuropáticas, combinados com betabloqueadores para abafar a frequência cardíaca acelerada e os músculos trêmulos. O objetivo é claro: replicar a desinibição do álcool sem o preço metabólico da ressaca. O problema é que nenhum desses medicamentos foi prescrito para esses fins.

Essa não é uma história isolada. Ela é o rosto de uma transformação perigosa que preocupa cientistas, reguladores e, cada vez mais, os profissionais que manuseiam essas substâncias diariamente: os farmacêuticos. Em um cenário onde a chamada "geração sóbria" rejeita o álcool, mas não abre mão de alterar a própria percepção para enfrentar salas cheias, medicamentos antes restritos a consultórios médicos migram para festas, encontros românticos e reuniões de família. O balcão da farmácia, longe de ser apenas um ponto de venda, transforma-se no espaço onde a ciência encontra a desinformação.

A pregabalina é o epicentro dessa tempestade. Um estudo publicado na revista Nature Communications estimou que o consumo global do fármaco mais do que quadruplicou entre 2008 e 2018. Na Inglaterra e no País de Gales, o medicamento foi mencionado em 2.360 certidões de óbito por envenenamento entre 2020 e 2024, número três vezes superior ao registrado no quinquênio anterior, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas. A China restringiu suas vendas online no início deste ano; a Índia, a Jordânia e a Ucrânia relatam aumento paralelo do uso indevido. O que começa como uma pílula para "sobreviver" a uma festa, explicam especialistas, degenera em rotina diária. "Agora não consigo sair de casa sem elas", diz Mei, estudante universitária chinesa de 20 anos, cujo nome foi alterado. O que era um coquetel para a noite se estendeu a provas, discursos e, por fim, à vida cotidiana.

Nesse tabuleiro, o farmacêutico assume um papel que vai muito além da dispensação. "Nós somos, muitas vezes, o último profissional de saúde que o paciente vê antes de colocar o medicamento no corpo", argumenta o farmacêutico clínico Dr. Ricardo Almeida, que atua em farmacovigilância no Reino Unido. "Quando um jovem chega ao balcão com uma receita de pregabalina ou propranolol, ou quando questiona os efeitos de um fármaco que viu em uma rede social, temos uma janela de cinco minutos para desfazer mitos que levaram meses para se formar." Para Almeida, a farmácia é o único espaço da cadeia de saúde onde a conversa acontece sem a pressão do tempo clínico e sem o estigma da consulta médica, o que a torna estratégica para a detecção precoce de abuso.

E os mitos são robustos. Influenciadores digitais vendem "stacks", combinações caseiras de medicamentos, como alternativas limpas ao álcool. Hashtags relacionadas à pregabalina geram milhares de vídeos ensinando doses recreativas. O apelo é duplo: o medicamento é mais barato que uma noite de bar, alguns usuários calculam gastar o equivalente a pouco mais de um real por dose, e é percebido como inocente justamente por carregar o rótulo de medicamento. "As pessoas pensam: 'Meu médico não prescreveria se fosse perigoso'", observa Liam Knowles, pesquisador de dependência química da Universidade de Teesside. O farmacêutico, porém, tem acesso ao prontuário e à autoridade técnica para confrontar essa lógica. "O fato de um composto ter indicação terapêutica não o torna seguro fora do controle médico", reforça Almeida. "O paracetamol é um medicamento. Em overdose, destrói o fígado. A pregabalina, em doses recreativas, deprime o sistema nervoso central de forma imprevisível."

A comparação com o álcool alimenta o debate, mas não simplifica a equação. O psicofarmacologista David Nutt, do Imperial College London, reconhece que o propranolol e a pregabalina, quando usados conforme prescrito, apresentam perfil de risco fisicamente menor que o consumo excessivo de etanol, associado a pelo menos sete tipos de câncer, segundo a Organização Mundial da Saúde. "Mas são, sem dúvida, mais seguros do que o álcool; não são totalmente seguros", pontua Nutt. A distinção crucial, acrescentam farmacêuticos, reside na fonte e na intenção. O álcool vendido em lojas do Reino Unido tem composição padronizada. A pregabalina comprada em sites ilegais, onde muitos jovens a adquirem, não. "Se você compra uma bebida destilada, o que está escrito no rótulo é o que há dentro da garrafa. Com medicamentos do mercado negro, essa certeza não existe", alerta Knowles. O farmacêutico, ao orientar sobre a importância da rastreabilidade e dos padrões de fabricação, combate um risco invisível: o comprimido falso ou superdosado.

O perigo, porém, não é apenas físico. É existencial. A psicóloga Emily Jones, do King's College London, alerta que o uso rotineiro de medicamentos para anestesiar a ansiedade social reforça a crença de que o indivíduo é incapaz de interagir sem auxílio químico. "Você perde a confiança na sua própria capacidade de lidar com as coisas de forma eficaz", diz ela. O que começa como uma pílula antes de uma festa escorrega para encontros, reuniões de trabalho e, eventualmente, a vida diária. Sofia, atendente ucraniana, iniciou o uso em contextos festivos; em pouco tempo, não conseguia atender clientes sem o fármaco. Quando ficou duas semanas sem acesso, experimentou episódios depressivos e pensamentos suicidas. "Não entendia o que estava acontecendo comigo", relata.

Para o farmacêutico, essa trajetória é previsível e prevenível. "Nosso código deontológico nos obriga a garantir o uso racional do medicamento", explica Almeida. "Isso significa que, quando identificamos sinais de abuso, compras repetidas, receitas de múltiplos médicos, questionamentos sobre efeitos eufóricos, temos o dever de intervir, orientar e, se necessário, acionar a vigilância sanitária." Na prática, essa intervenção é um dos poucos freios ao fenômeno, uma vez que a internet desintermediou a informação e as redes sociais funcionam como farmácias paralelas. Mei, a estudante chinesa, comprou seu medicamento por meio de uma plataforma social. "Há milhares de postagens vendendo", afirma.

O caso mais trágico ilustra o limite dessa lógica. Alex Cottam, engenheiro de software de 27 anos, tinha prescrição de pregabalina para ansiedade. Sua mãe, Michelle, diz que ele "ficou viciado" e passou a reabastecer-se em sites ilegais. Não sobreviveu. "Não consigo parar de pensar todos os dias que a pregabalina matou meu filho", disse ela à BBC em 2024. Na Inglaterra, o fármaco é droga controlada de Classe C desde 2019; a compra sem receita pode render dois anos de prisão. Ainda assim, o fluxo continua.

O desafio para a farmácia, portanto, é duplo: técnico e cultural. É preciso garantir que o medicamento chegue às mãos certas, mas também reconstruir a noção de que socialização não exige alteração química, uma tarefa que extrapola o balcão e exige parceria com médicos, psicólogos e educadores. "O farmacêutico não é policial", resume Almeida. "É educador, cuidador e, muitas vezes, o único ouvido que o paciente encontra antes de tomar uma decisão irreversível. Nesse contexto, cinco minutos de conversa no balcão podem ser a diferença entre um uso terapêutico e uma estatística de overdose."

Enquanto milhões de jovens adultos buscam uma cura aparentemente fácil para a ansiedade que a pandemia, segundo pesquisadores, apenas agravou, o balcão da farmácia permanece como um território de resistência. Silencioso. Técnico. E, talvez, mais decisivo do que nunca.