Zolpidem: do medicamento para dormir ao risco de acidentes graves

História de médico que caiu do 7º andar após usar o medicamento expõe os perigos do uso inadequado e reforça o papel do farmacêutico na prevenção de intoxicações e eventos adversos

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Na manhã de 29 de junho de 2022, o médico Vitor Piva, de 34 anos, voltava para casa em São Paulo após um plantão exaustivo. O barulho de uma obra na rua impedia o sono. Precisando descansar para trabalhar na noite seguinte, ele tomou um comprimido de zolpidem. Depois outro. E mais outro. Quando acordou, estava na UTI do Hospital das Clínicas. Não lembrava de nada. Só mais tarde soube que havia caído da sacada do sétimo andar. A perna direita foi amputada. A visão, perdida. O rosto, quebrado em vários pontos. A Polícia Civil descartou suicídio e apontou a causa: parassonia induzida pelo medicamento, provavelmente um episódio de sonambulismo que o levou a escalar uma sacada baixa sem perceber.

A história de Piva não é um acidente isolado. Ela ilustra o que especialistas chamam de problema de saúde pública: o uso inadvertido do zolpidem, hipnótico mais consumido no país. Lançado no Brasil nos anos 1990 e popularizado após 2007 com a chegada dos genéricos, o fármaco virou rotina para quem tem dificuldade para dormir. Um estudo do Instituto de Psiquiatria da USP mostrou que, entre brasileiros com insônia, 60% tratam o problema com medicamentos, e 44% recorrem a hipnóticos como o zolpidem. Em 2020, no auge da pandemia, foram vendidas 23,3 milhões de caixas no país, número que fez profissionais de saúde falarem em epidemia.

O medicamento funciona bem quando indicado corretamente, em doses baixas e por pouco tempo. A recomendação é de no máximo quatro semanas, com dose diária de até 10 mg. Mas a tolerância aumenta rápido. Pacientes que começam com um comprimido passam a tomar cinco, seis, oito. Aí surgem a amnésia lacunar, os delírios, a dependência e o sonambulismo. Foi o que aconteceu com Piva, que tomou quatro comprimidos de uma só vez e, segundo ele mesmo admitiu, fazia automedicação com uma substância que também prescrevia.

Nesse cenário, o farmacêutico vira o último filtro antes que o risco chegue às mãos do paciente. Desde agosto de 2024, a Anvisa reclassificou o zolpidem como tarja preta, exigindo receita azul e prescrição presencial. As vendas oficiais caíram para 13,5 milhões de caixas no ano passado. Mas o mercado ilegal continua fervilhando. Receitas falsificadas, farmácias irregulares e revenda pela internet mantêm o fármaco acessível a quem já desenvolveu dependência. É aí que o farmacêutico entra como vigilante: ao conferir a autenticidade da receita, ao questionar compras repetidas, ao explicar que o medicamento não é um simples indutor de sono, mas um depressor do sistema nervoso central que pode matar quando usado sem controle.

A nova diretriz da Academia Brasileira de Neurologia já deixa claro que a terapia cognitivo-comportamental é o tratamento de primeira linha para insônia. O zolpidem tem lugar, mas temporário. Quem orienta o paciente sobre isso, muitas vezes, é o profissional da farmácia, na conversa de dois minutos que acontece antes da saída da porta. Piva, que passou por cerca de 20 cirurgias e hoje precisa da família para as atividades básicas, nunca mais tomou o medicamento. E agora alerta os amigos: para dormir, às vezes o risco é maior que a insônia.