Os danos causados pelo mercúrio à saúde e ao meio ambiente, nas terras Yanomami

O metilmercúrio afeta principalmente o sistema nervoso, vez que ele atravessa a barreira hematoencefálica, causando sérios distúrbios neurológicos

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O governo federal terá presença permanente nas terras Yanomami, segundo anunciou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na terça (09.01.24). No dia seguinte, uma comitiva da qual participam as ministras dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara; do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, foi para a região de Auaris, com o objetivo de examinar a realidade local e implantar ações para retirar dali os garimpeiros ilegais e proteger os indígenas. Graves problemas à saúde e ao meio ambiente são causados pelo uso do mercúrio na mineração ilegal. 

A farmacêutica geneticista Jamila Perini explica que o metilmercúrio afeta principalmente o sistema nervoso, vez que ele atravessa a barreira hematoencefálica, causando sérios distúrbios neurológicos, prejudicando a linguagem, a parte motora, a visão e o crescimento infantil. “As crianças são mais suscetíveis aos efeitos nocivos do metal em comparação aos adultos, porque, nessa fase, o sistema gastrointestinal, a membrana permeável que protege o cérebro e as funções excretoras, ainda, estão em desenvolvimento”, informa a Dra. Jamila Perini.

 

Farmacêutica geneticista Jamila Perini

 

QUEM É - Jamila é graduada em Farmácia e Bioquímica e tem mestrado e doutorado em Química Biológica. Ela atua como professora associada de Genética e Biologia Molecular para o curso de Farmácia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e coordena o Laboratório de Pesquisa em Ciências Farmacêuticas (Lapesf) da mesma instituição de ensino. O Lapesf/Uerf integra, desde 2017, um grupo interinstitucional que investiga os impactos do garimpo ilegal na Amazônia.

PESQUISA - Os pesquisadores visitaram, nos últimos anos, aldeias dos povos Yanomami, Munduruku e, entre abril e maio de 2023, foram à Terra Indígena Sete de Setembro, dos Paiter-Suruí, em Rondônia. O grupo, que leva o nome de “Ambiente, Diversidade e Saúde”, é multidisciplinar e coordenado pelo pesquisador Paulo Basta, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Os pesquisadores levantam dados socioeconômicos, realizam exames médicos – clínicos e neurológicos – e coleta amostras de cabelo para dosar os níveis de mercúrio nos voluntários. O projeto conta com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do governo alemão, por intermédio da ONG World Wide Fund for Nature (WWF).

A mineração ilegal, além de ampliar o desmatamento e ameaçar a sobrevivência da fauna local, importante fonte de caça para os indígenas, polui a atmosfera, porque parte do mercúrio é vaporizada pela queima do amálgama (liga metálica) dos dois componentes, processo geralmente feito com um maçarico, a fim de se obter o ouro puro. Descartados indevidamente nos rios, os rejeitos da substância são transformados por bactérias em metilmercúrio, composto orgânico que contamina as águas e os peixes. Isso acarreta graves danos à saúde das populações ribeirinhas e de todos aqueles que consomem o pescado proveniente dessas áreas.

Nas gestantes, o metilmercúrio consegue chegar à placenta e ao feto e, depois, contamina o leite materno. Casos de crianças com atraso cognitivo, dificuldade de atenção e malformações têm se tornado cada vez mais frequentes nas comunidades atingidas pelo garimpo. O metal, também, provoca transtornos alimentares, problemas de pele, fraqueza muscular, tremores, paralisia, perda de sensibilidade, deformidades, insônia, dores de cabeça, irritabilidade, depressão, delírios, cegueira, surdez e até a morte.

PRESENÇA PERMANENTE DO GOVERNO – A presença permanente do governo federal no território Yanomami, em Roraima, para combater o garimpo ilegal e garantir proteção aos indígenas, da região, faz parte da nova fase das ações governamentais, e terá orçamento de R$ 1,2 bilhão. O presidente Lula disse que o governo vai tratar a questão indígena como de Estado.

Texto original da diretoria de comunicação da Uerj, com alterações feitas pela Comunicação do CFF

Foto: acervo da comunicação da Uerf