Genéricos: a batalha diária dos farmacêuticos contra a desconfiança que persiste apesar da ciência

Profissionais relatam resistência de clientes mesmo décadas após a criação da lei que regulamentou o setor; Anvisa garante que testes de bioequivalência asseguram eficácia e segurança

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Quem frequenta farmácias no Brasil já presenciou a cena: o cliente pede um medicamento de marca, o farmacêutico oferece a opção genérica, geralmente mais barata, e recebe de volta um olhar de desconfiança. "Não, prefiro o original", diz o consumidor, como se estivesse diante de um produto falsificado. O que poucos sabem é que, por trás daquela caixa com tarja amarela e letras padronizadas, existe um dos sistemas de controle de qualidade mais rigorosos do mundo.

"É uma luta diária. Muitas vezes o cliente acha que estou tentando empurrar um produto inferior para ganhar alguma comissão, o que não existe. Meu papel é oferecer uma alternativa que cabe no bolso dele e que tem a mesma eficácia", desabafa a farmacêutica Mariana Duarte, que há oito anos atua em uma drogaria na zona norte de São Paulo. Ela conta que já ouviu de tudo: que genérico "não faz efeito", que "é remédio de pobre", que "a matéria-prima é mais fraca". "É um mito que se criou e que se recusa a morrer."

A desconfiança, no entanto, não encontra respaldo na ciência nem na legislação brasileira. Desde 1999, quando a Lei dos Genéricos (Lei 9.787) foi sancionada, esses medicamentos só podem chegar às prateleiras depois de passar por uma bateria de testes exigidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O principal deles é o teste de bioequivalência, que compara, em laboratório e em voluntários humanos, se o genérico se comporta no organismo exatamente como o medicamento de referência.

O genérico precisa ser intercambiável com o medicamento de referência. Isso significa que ele deve ter a mesma composição, a mesma dosagem, a mesma forma farmacêutica e, principalmente, a mesma biodisponibilidade,ou seja, a mesma capacidade de ser absorvido e de agir no organismo. Não é uma cópia qualquer. É um medicamento que comprovou cientificamente que é equivalente.

Os números mostram que a fiscalização é levada a sério. De acordo com a Anvisa, mais de 4.700 medicamentos genéricos já foram registrados no Brasil. Cada um deles passou por análises de estabilidade, pureza, dissolução e segurança antes de receber o aval para comercialização. Além disso, a agência mantém um programa contínuo de monitoramento de qualidade, com recolhimento de amostras do mercado para verificação periódica.

O mito da ineficácia tem raízes históricas e culturais. Antes da regulamentação, o mercado brasileiro era inundado por "similares" que não precisavam comprovar equivalência terapêutica. Muitos desses produtos, de fato, apresentavam qualidade questionável. Com a lei de 1999, os similares passaram a ter prazos para se adequar, e os genéricos nasceram sob um guarda-chuva regulatório muito mais estrito. Ainda assim, a memória do passado ficou.

"Existe uma associação automática entre preço baixo e qualidade inferior. As pessoas desconfiam do que é barato. Mas no caso dos genéricos, o preço menor não vem de matéria-prima pior ou de processo malfeito. Vem do fato de que o fabricante não precisou investir em pesquisa e desenvolvimento de uma molécula nova, nem em marketing. Ele apenas reproduz uma fórmula que já está em domínio público, com a tecnologia disponível", esclarece a farmacêutica comunitária Renata Inajara Vasconcelos, que atende em uma farmácia popular em Recife e enfrenta a mesma resistência relatada por colegas de todo o país.

Renata conta que, frequentemente, precisa usar exemplos simples para convencer os clientes. "Eu pergunto: 'se o senhor comprar um suco de laranja da marca X e outro da marca Y, feitos com a mesma fruta, na mesma quantidade, o senhor acha que um vai matar a sede e o outro não?' Aí muitos riem e entendem. É a mesma lógica do genérico. A substância ativa é a mesma, na mesma dose."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece os genéricos como estratégia fundamental para ampliar o acesso a tratamentos e reduzir gastos em saúde. Estima-se que, no Brasil, eles custem em média 35% menos que os medicamentos de referência, podendo chegar a 65% de diferença em alguns casos. A economia para o consumidor e para o sistema público de saúde é expressiva: segundo o Ministério da Saúde, cada ponto percentual de aumento no uso de genéricos no SUS representa milhões de reais economizados anualmente.

E a vigilância não termina no registro. Depois que o medicamento está no mercado, a Anvisa pode recolher amostras a qualquer momento para análise. Se houver qualquer desvio em relação ao padrão aprovado, o lote é suspenso e a empresa responde administrativamente. Não é um sistema que perdoa falhas.

A resistência, porém, também tem um componente de comunicação. Muitos pacientes não sabem diferenciar genérico de similar, ou desconhecem o significado da tarja amarela e da letra "G" na embalagem, identificação obrigatória desde 2001. A falta de informação abre espaço para boatos e para a perpetuação de crenças equivocadas. Em 2022, uma pesquisa do Instituto Datafolha revelou que 73% dos brasileiros consideram os genéricos confiáveis, mas 27% ainda nutrem desconfiança, um contingente significativo.

"O que me preocupa é que essa desconfiança leva pessoas a interromperem tratamentos por não conseguirem pagar o medicamento de marca. Já atendi pacientes que voltaram para casa sem o medicamento porque se recusaram a levar o genérico, mesmo eu explicando que era a mesma coisa. Isso tem impacto na saúde pública, não é uma questão de preferência apenas", alerta Renata Inajara Vasconcelos.

A Anvisa, por sua vez, mantém uma postura clara em seus documentos oficiais: "O medicamento genérico é seguro, eficaz e de qualidade, comprovados por testes rigorosos de equivalência farmacêutica e bioequivalência realizados em centros habilitados e reconhecidos internacionalmente. A intercambialidade entre o genérico e o medicamento de referência é assegurada por lei."

Enquanto a ciência segue confirmando a segurança desses produtos, os farmacêuticos continuam na linha de frente de uma batalha que mistura informação, paciência e pedagogia. "A gente não desiste. A cada cliente que sai daqui levando um genérico e volta depois dizendo que deu certo, é uma vitória. O boca a boca ainda é a melhor ferramenta contra a desinformação", conclui Renata.

O que diz a lei:

  • Lei 9.787/1999 — criou o medicamento genérico no Brasil e definiu os critérios para registro e comercialização.

  • Resolução RDC 16/2007 da Anvisa — estabelece os requisitos para testes de bioequivalência e equivalência farmacêutica.

  • Identificação obrigatória — a embalagem deve conter a tarja amarela com a letra "G" e a frase "Medicamento Genérico — Lei 9.787/99".

  • Intercambialidade — a prescrição pode ser substituída pelo genérico correspondente na farmácia, mediante orientação do farmacêutico, exceto quando o médico registrar "não intercambiável" na receita.