Jogo do "farmar aura" leva adolescentes a usar medicamentos controlados escondidos dos pais
Prática que viralizou em redes sociais transforma o uso indevido de medicamentos tarja preta em desafio virtual; especialistas alertam para riscos graves à saúde
Uma nova trend que circula em plataformas de vídeos curtos tem acendido o alerta entre farmacêuticos, médicos, educadores e autoridades sanitárias. Adolescentes estão criando jogos de "farmar aura" (gíria do universo gamer que significa acumular pontos ou status) por meio do uso de medicamentos controlados retirados escondido dos pais. Os relatos, que se multiplicam nas redes sociais, descrevem uma espécie de competição velada: quem toma determinados medicamentos e registra os efeitos ganha mais "aura", ou seja, mais relevância dentro do grupo.
A expressão "farmar aura" vem do inglês farming, usado em jogos para designar a repetição exaustiva de uma ação para acumular recursos. No contexto virtual, "aura" passou a ser uma medida informal de carisma, presença ou respeito. Em vídeos e postagens, adolescentes exibem reações após ingerir medicamentos como calmantes, ansiolíticos e analgésicos de uso controlado, como se estivessem avançando de fase em um jogo.
A dinâmica, segundo relatos de jovens e capturas de tela compartilhadas em grupos de mensagens, começa com a publicação de um "desafio": o participante precisa tomar um comprimido de determinado medicamento, gravar os efeitos e postar o resultado. Quanto mais intensa a reação (sonolência, fala arrastada, euforia), maior a pontuação simbólica atribuída pelos demais. Os medicamentos são obtidos, na maioria dos casos, dentro de casa, retirados de armários de medicamentos dos pais ou responsáveis.
Riscos que vão além da brincadeira
O uso recreativo de medicamentos controlados sem prescrição de profissional habilitado pode causar dependência química, depressão respiratória, arritmias cardíacas, convulsões e até morte. No caso de adolescentes, o risco é ampliado pelo organismo ainda em desenvolvimento e pela combinação frequente com bebidas alcoólicas ou outras substâncias.
A Associação Brasileira de Psiquiatria alerta que o consumo de ansiolíticos e opioides por jovens sem indicação é um dos principais portões de entrada para a dependência química na vida adulta. Além dos danos físicos, há impactos neurológicos que podem comprometer memória, aprendizagem e controle de impulsos em fase decisiva de formação cerebral.
O papel dos pais e dos farmacêuticos
Diante do fenômeno, farmacêuticos reforçam que a prevenção começa dentro de casa. Manter medicamentos controlados em locais de acesso restrito, observar mudanças de comportamento (como isolamento, sonolência excessiva ou oscilações de humor) e conversar abertamente sobre os riscos do uso indevido são medidas essenciais.
O farmacêutico também ocupa posição estratégica. Cabe a ele orientar sobre o armazenamento correto dos medicamentos, alertar sobre os perigos da automedicação e, no balcão da farmácia, identificar tentativas de compra irregular. A venda de medicamentos controlados sem receita é crime, e o profissional tem o dever legal de reter a prescrição e recusar a dispensação diante de qualquer suspeita de fraude.
Alerta aos jovens
A busca por validação nas redes sociais não pode custar a saúde ou a vida. O que hoje aparece como "jogo" pode se transformar em dependência, internação ou sequelas irreversíveis. Especialistas em saúde mental recomendam que os adolescentes que se sentem pressionados a participar desses desafios procurem ajuda de um adulto de confiança, da escola ou de serviços de saúde. O reconhecimento social efêmero das redes não compensa os danos reais que o corpo e o cérebro podem sofrer.
A tendência, que mistura cultura gamer, busca por pertencimento e exposição virtual, expõe uma lacuna perigosa: a necessidade de informação qualificada sobre medicamentos e de diálogo constante entre gerações. Enquanto as plataformas digitais não adotam políticas eficazes de moderação de conteúdo, o enfrentamento depende de vigilância, educação e acolhimento.