Farmacêuticos desenvolvem formulação de medicamento para recém-nascidos

Experiência no Rio de Janeiro mostra como a farmacotécnica hospitalar pode contribuir para tornar a terapia mais adequada e otimizar recursos do SUS

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Uma dificuldade comum na assistência a recém-nascidos é encontrar apresentações de medicamentos que sejam adequadas às suas necessidades. Foi diante desse desafio que uma equipe do Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE), no Rio de Janeiro, utilizou a farmacotécnica hospitalar para desenvolver uma formulação oral de valganciclovir destinada a neonatos com infecção congênita por citomegalovírus (CMV). A experiência é relatada na edição de 2026 da revista Experiências Exitosas de Farmacêuticos no SUS, publicação do Conselho Federal de Farmácia (CFF).

O ponto de partida foi uma situação bastante específica. O tratamento dos neonatos com CMV era realizado com ganciclovir intravenoso, o que exige acesso venoso prolongado e, em alguns casos, mantém o recém-nascido internado exclusivamente para receber o medicamento. Além de aumentar a demanda hospitalar, a permanência prolongada de cateteres pode estar associada a complicações, como infecções e eventos tromboembólicos.

A equipe médica da UTI Neonatal buscou então uma alternativa oral: o valganciclovir. Havia, porém, outro obstáculo. O medicamento não era padronizado no hospital e a apresentação disponível comercialmente era de comprimidos de 450 mg, uma concentração elevada para a administração individualizada em recém-nascidos.

Foi nesse momento que a atuação farmacêutica fez a diferença. A equipe do setor de farmacotécnica desenvolveu uma suspensão oral de valganciclovir, permitindo adequar a concentração do medicamento às doses necessárias para os neonatos. Para chegar à formulação, os profissionais fizeram inicialmente uma pesquisa bibliográfica sobre formulações orais e estabilidade do medicamento em pacientes pediátricos e neonatos.

Da apresentação comercial à dose adequada

A preparação foi realizada seguindo procedimentos operacionais padrão e utilizando capela de fluxo laminar classe IIB2. Foram triturados oito comprimidos de valganciclovir de 450 mg, que posteriormente foram dispersos e incorporados ao veículo utilizado na preparação. O resultado foi uma suspensão com concentração de 60 mg/mL, acondicionada em frascos âmbar de 60 mL.

Na prática, a adaptação permitiu transformar uma apresentação que não era adequada para a população neonatal em uma formulação que possibilitava a administração de doses individualizadas. De acordo com o relato, um frasco de 60 mL era suficiente para pelo menos 21 dias de tratamento domiciliar, considerando a posologia utilizada como referência no estudo.

Mudança no consumo e redução dos custos

Os dados levantados pelos autores também apontaram uma mudança importante no perfil de consumo dos medicamentos na UTI Neonatal.

Entre agosto e novembro de 2024, antes da aquisição do valganciclovir, o consumo mensal de ganciclovir intravenoso variou de 11 a 48 bolsas. Em dezembro, foram adquiridos 20 comprimidos de valganciclovir para manipulação. No mês seguinte, a quantidade chegou a 100 comprimidos. Em janeiro de 2025, não houve registro de novas dispensações de ganciclovir intravenoso para a UTI Neonatal.

A análise econômica também mostrou vantagem da formulação oral. Para um tratamento estimado em 42 dias, o custo por paciente foi calculado em R$ 2.393,28 com o valganciclovir oral, contra R$ 6.535,20 com o ganciclovir intravenoso. Em tratamentos de 180 dias, os valores estimados foram de R$ 10.769,76 e R$ 28.008,00, respectivamente.

Além da questão financeira, a mudança pode representar uma redução da exposição do recém-nascido aos riscos relacionados ao acesso venoso prolongado e abrir a possibilidade de continuidade do tratamento em ambiente domiciliar, quando clinicamente viável. Os autores ressaltam, entretanto, que o impacto direto sobre a desospitalização e a adesão ao tratamento em casa ainda precisa ser melhor avaliado.

Uma experiência que pode inspirar outros serviços

Mais do que a formulação de um medicamento específico, a experiência do HFSE chama atenção para uma possibilidade de atuação do farmacêutico: identificar necessidades que não são atendidas pelas apresentações disponíveis e buscar, dentro das condições técnicas e dos protocolos institucionais, soluções que tornem o tratamento mais adequado ao paciente.

Para que uma iniciativa semelhante seja incorporada a outros hospitais, os autores apontam a necessidade de avaliar aspectos como a padronização do medicamento, a existência de protocolos para a transição entre as vias intravenosa e oral, os critérios clínicos para seleção dos pacientes, o monitoramento da resposta ao tratamento e a continuidade do fornecimento após a alta. Também destacam a importância da capacitação das equipes médica, farmacêutica e de enfermagem.

No caso do HFSE, a proposta de transição para a terapia oral foi apenas parcialmente alcançada, mas deixou um caminho estruturado para o aperfeiçoamento da assistência. Segundo os autores, os próximos passos incluem a elaboração de protocolos clínicos, o acompanhamento da efetividade do tratamento oral e a ampliação do acesso ao medicamento no SUS.

Autores: Carolina R. Santos, Isabel C. Rangel, Marcelle Siqueira, Miguel Medeiros e Fabiana Araújo.

Instituição: Hospital Federal dos Servidores do Estado (HFSE), Rio de Janeiro (RJ).

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