O antibiótico que vai para o lixo pode voltar como superbactéria

Descarte inadequado de medicamentos favorece a resistência antimicrobiana e ameaça a eficácia dos tratamentos; farmacêuticos são fundamentais para orientar pacientes

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Todo comprimido de antibiótico que segue pelo ralo da pia ou vai parar no lixo comum carrega um risco que ultrapassa os limites do banheiro de casa. O descarte incorreto desses medicamentos é apontado por infectologistas, microbiologistas e órgãos de saúde pública como um dos motores silenciosos da resistência antimicrobiana, fenômeno que já transforma infecções simples em ameaças potencialmente fatais. A lógica é direta: quando o antibiótico escapa do tratamento e chega ao ambiente em doses baixas e contínuas, ele deixa de ser um medicamento e passa a funcionar como uma academia de treinamento para bactérias.

O problema começa no esgoto doméstico. Ao descartar sobras de amoxicilina, azitromicina ou ciprofloxacino no vaso sanitário ou na pia, o princípio ativo se dilui na água e percorre as redes de coleta. As estações de tratamento, em sua maioria, não foram projetadas para remover fármacos. O resultado é que concentrações mínimas, mas constantes, de antibióticos chegam a rios, córregos e solos. Nesses ambientes, as bactérias ficam expostas a doses que não são suficientes para matá-las, mas que funcionam como uma pressão seletiva: os microrganismos mais resistentes sobrevivem, se multiplicam e repassam seus genes de resistência para outras gerações e até para espécies diferentes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças à saúde pública global. Estima-se que, em 2019, cerca de 1,27 milhão de mortes no mundo tenham sido causadas diretamente por infecções bacterianas resistentes a medicamentos. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que as infecções relacionadas à assistência à saúde atingem cerca de 14% das internações, e uma parcela crescente delas envolve patógenos que não respondem mais aos antibióticos de primeira linha.

O descarte doméstico é apenas uma parte do problema, mas uma parte que costuma ser subestimada. Uma pesquisa conduzida pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF) revelou que a maioria dos brasileiros guarda sobras de medicamentos em casa e que mais da metade já descartou algum medicamento no lixo comum ou no vaso sanitário. O hábito, muitas vezes justificado pela falta de informação ou pela ausência de pontos de coleta próximos, contrasta com a existência de uma legislação nacional que obriga farmácias e drogarias a receberem medicamentos vencidos ou em desuso. A Política Nacional de Resíduos Sólidos e a Resolução da Anvisa nº 222/2018 determinam que o consumidor deve entregar esses produtos em estabelecimentos de saúde ou farmácias participantes, que encaminham o material para incineração ou tratamento adequado.

O que muitos não percebem é que o antibiótico descartado de forma errada também pode retornar para a mesa. Estudos realizados em diversos países já detectaram resíduos de antibióticos em águas superficiais, em estações de tratamento e até em alimentos irrigados com água contaminada. Uma vez no ambiente, o fármaco não perde apenas a função terapêutica. Ele se transforma em um poluente químico que pressiona a microbiota local e favorece a disseminação de genes de resistência, que podem alcançar bactérias causadoras de doenças em humanos por meio de mecanismos de transferência genética.

O fenômeno não conhece fronteiras. Em 2022, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) alertou que a poluição por antibióticos e o aumento da resistência bacteriana estão diretamente ligados ao manejo inadequado de resíduos farmacêuticos. O documento cita que, globalmente, até 80% dos antibióticos consumidos por humanos e animais são excretados de forma inalterada na urina e nas fezes, e que o esgoto não tratado é uma das principais rotas de contaminação ambiental. No Brasil, onde menos da metade da população tem acesso a coleta e tratamento de esgoto adequados, o cenário ganha contornos ainda mais preocupantes.

O papel fundamental dos farmacêuticos

No centro dessa engrenagem, o farmacêutico ocupa uma posição estratégica que vai muito além do balcão da drogaria. É ele quem está na linha de frente do contato com o paciente, no momento exato em que o medicamento é dispensado e as primeiras orientações sobre uso e descarte podem fazer a diferença. A categoria é, por formação e atribuição legal, responsável por promover o uso racional de medicamentos e por orientar a população sobre os riscos do armazenamento inadequado e do descarte irregular.

O farmacêutico clínico e consultor em saúde pública, João Paulo Nogueira, defende que a orientação sobre o descarte correto deveria começar no momento da dispensação. "O paciente sai da farmácia com a caixa do antibiótico e a promessa de tomar até o fim. Mas ninguém pergunta o que ele vai fazer com as sobras, e ele também não pergunta. O descarte virou um ponto cego do tratamento", afirma Nogueira, que atua em programas de uso racional de medicamentos.

A atuação farmacêutica nesse cenário se desdobra em várias frentes. Na atenção primária, cabe a ele educar o paciente sobre a importância de completar o ciclo terapêutico, evitando sobras desnecessárias. Nas farmácias comunitárias, é o profissional responsável por implementar e gerenciar os pontos de coleta de medicamentos vencidos ou em desuso, cumprindo a legislação sanitária vigente e garantindo que o material recolhido tenha destinação ambientalmente adequada. Nos hospitais, o farmacêutico clínico atua na gestão da antibioticoterapia, revisando prescrições, ajustando doses e duração do tratamento, o que reduz o volume de excedentes e o risco de resistência.

Há ainda um papel de vigilância e educação continuada. O farmacêutico é o profissional de saúde mais acessível à população e pode funcionar como um agente de transformação cultural, desmistificando a ideia de que antibiótico é um produto de uso corriqueiro e ensinando que o descarte correto é parte integrante do tratamento. "O farmacêutico precisa assumir o protagonismo nessa discussão. Não basta entregar o medicamento. É preciso garantir que o paciente entenda o que fazer com ele do primeiro ao último comprimido, inclusive depois que o tratamento termina", complementa Nogueira.

O Conselho Federal de Farmácia mantém campanhas permanentes de orientação sobre o descarte correto de medicamentos e capacita profissionais para atuarem como multiplicadores de boas práticas. Em várias cidades brasileiras, farmácias públicas e privadas já se tornaram pontos de recebimento, mas a cobertura ainda é desigual e concentrada nos grandes centros urbanos. Nas regiões mais afastadas, onde o acesso à informação e à infraestrutura é limitado, o farmacêutico local muitas vezes representa a única ponte entre a população e as políticas públicas de saúde.

A indústria farmacêutica também tem responsabilidade no ciclo. Embalagens que incentivam sobras, como blísteres com mais comprimidos do que o necessário para um tratamento padrão, contribuem para o acúmulo de medicamentos em gavetas. Além disso, a venda fracionada, prevista em lei desde 2006, mas pouco adotada nas farmácias brasileiras, poderia reduzir significativamente o volume de sobras de antibióticos. Nesse ponto, o farmacêutico é peça-chave para viabilizar a prática, uma vez que o fracionamento exige responsabilidade técnica e registros sanitários específicos.

Enquanto isso, as superbactérias continuam se multiplicando. A Klebsiella pneumoniae resistente a carbapenêmicos, por exemplo, é hoje uma das principais causas de surtos hospitalares no Brasil, e a Escherichia coli produtora de betalactamases de espectro estendido já é encontrada em infecções comunitárias. A conexão entre o ambiente contaminado e o hospital não é uma hipótese distante: estudos de epidemiologia molecular já demonstraram que cepas resistentes encontradas em rios urbanos apresentam perfil genético semelhante ao de isolados clínicos.

Para o consumidor, o recado é simples e direto. O antibiótico que sobrou do tratamento da garganta inflamada não deve ser guardado para uma próxima vez, nem jogado no lixo orgânico, muito menos no vaso sanitário. O destino correto é a devolução em uma farmácia ou posto de coleta autorizado. E é exatamente aí que o farmacêutico entra como orientador, acolhendo a dúvida, explicando o risco e garantindo que o medicamento siga para o destino ambientalmente seguro. Parece um gesto pequeno, quase burocrático. Mas é exatamente nesse ato, mediado por um profissional qualificado, que se decide se um medicamento salvador continuará sendo útil para as próximas gerações ou se se tornará mais um degrau na escalada das superbactérias.