Cuidado farmacêutico navega pelos rios do Pará e amplia acesso à saúde para comunidades ribeirinha
Artigo de farmacêuticas da UBSF Abaré I relata experiência de atendimento itinerante, educação em saúde e uso racional de medicamentos durante expedições fluviais no oeste do Pará
Levar saúde a comunidades onde o acesso por terra é limitado exige mais do que profissionais e medicamentos: exige deslocamento, planejamento e, sobretudo, uma compreensão sensível da realidade de quem vive às margens dos rios. Em Santarém, no oeste do Pará, essa missão ganha as águas como caminho. É nesse cenário que a Unidade Básica de Saúde Fluvial (UBSF) Abaré I desenvolve ações de Atenção Primária à Saúde e aproxima o Sistema Único de Saúde (SUS) da população ribeirinha.
A experiência foi registrada pelas farmacêuticas Zonilce Brito Vieira e Amanda de Sousa da Conceição, da UBSF Abaré I, no artigo “Saúde da população ribeirinha: cuidado farmacêutico sobre as águas”, publicado na revista Experiências Exitosas de Farmacêuticos no SUS. O trabalho mostra como a atuação do farmacêutico, nesse território, ultrapassa a tradicional dispensação de medicamentos e incorpora acompanhamento farmacoterapêutico, educação em saúde e estratégias adaptadas à realidade das comunidades.
Gerida em parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém (SEMSA) e a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), a Abaré I atende a Região do Tapajós, alcançando 76 comunidades e 2.779 pessoas. A embarcação integra uma rede de unidades fluviais que desempenha papel estratégico na oferta de serviços de saúde em áreas de difícil acesso geográfico.
A rotina é marcada por expedições que percorrem diferentes comunidades. A UBSF Abaré I realiza entre seis e sete expedições por ano, com duração de aproximadamente dez dias cada. Em uma mesma jornada, o barco pode atracar pela manhã em uma comunidade, prestar atendimento das 8h às 12h e seguir viagem para outra localidade, onde os serviços continuam durante a tarde.
Farmacêutico além da dispensação
É nesse fluxo itinerante que o trabalho das farmacêuticas ganha destaque. Na farmácia da unidade, o profissional realiza a dispensação de medicamentos do componente básico da assistência farmacêutica, mas também acompanha os tratamentos, orienta os usuários e estimula a adesão à terapia medicamentosa.
A atuação se estende aos programas Hiperdia e Saúde da Mulher, contribuindo para o acompanhamento de doenças crônicas e para o cuidado integral. O artigo enfatiza que atender a população ribeirinha exige considerar fatores sociais, culturais e ambientais que interferem diretamente nas condições de saúde.
Outro ponto ressaltado pelas autoras é a valorização dos conhecimentos tradicionais. O uso de plantas medicinais faz parte da realidade de muitas comunidades atendidas. Por isso, o cuidado farmacêutico busca estabelecer diálogo entre os saberes locais e o conhecimento técnico, considerando, quando seguro e possível, as práticas fitoterápicas e os riscos de interações com medicamentos convencionais.
Comunicação adaptada à realidade dos pacientes
Entre os desafios identificados pelas farmacêuticas está a adesão correta aos tratamentos, especialmente entre idosos, pessoas com baixa escolaridade, não alfabetizadas ou que vivem sozinhas.
Para enfrentar essa dificuldade, a equipe adotou estratégias simples e visuais. Uma delas é o uso de linguagem simplificada e adaptada ao vocabulário popular, associada a adesivos que indicam os horários de administração dos medicamentos. A iniciativa procura facilitar a compreensão das prescrições, reduzir o risco de uso incorreto e ampliar a autonomia dos pacientes.
A estratégia revela uma característica central da experiência: adaptar o cuidado à realidade de quem recebe o atendimento. Em vez de apenas entregar o medicamento, o farmacêutico procura garantir que o paciente compreenda como, quando e por que utilizá-lo.
Cerca de 2 mil pessoas atendidas pela farmácia em 2024
Os resultados registrados no artigo dão dimensão ao alcance da experiência. Em 2024, cerca de duas mil pessoas procuraram a farmácia do Abaré I, em busca de serviços como consultas farmacêuticas, dispensação de medicamentos, administração de injetáveis, ações de educação em saúde e orientações gerais.
Para as autoras, os números reforçam a relevância da assistência farmacêutica na Atenção Primária e mostram o potencial de uma atuação que combina acesso aos medicamentos, orientação e acompanhamento dos usuários.
A experiência também aponta caminhos para o aprimoramento do serviço. Entre as necessidades identificadas estão o fortalecimento da presença do farmacêutico nas equipes multiprofissionais, a ampliação do acompanhamento farmacoterapêutico, o uso de recursos de comunicação acessível e a valorização dos saberes tradicionais. O artigo defende ainda a criação de indicadores para avaliar os resultados das ações e investimentos que permitam ampliar a cobertura e a periodicidade das expedições fluviais.
Um modelo de cuidado que chega pelas águas
A história do Abaré I está diretamente ligada à expansão da atenção básica em territórios ribeirinhos. O barco iniciou suas atividades em 2006 como uma estratégia itinerante de saúde da família. Em 2008, foi incluído no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) e, em 2010, tornou-se a primeira Unidade Básica de Saúde Fluvial do Brasil integrada ao SUS. Em 2017, foi doado à UFOPA, passando também a funcionar como UBSF-escola, articulando assistência, ensino, pesquisa e extensão.
Ao registrar a experiência, Zonilce Brito Vieira e Amanda de Sousa da Conceição mostram que garantir o direito à saúde em territórios remotos requer soluções capazes de dialogar com as particularidades locais. No Abaré I, o cuidado farmacêutico se desloca junto com o barco e encontra o paciente em seu próprio território.
Mais do que transportar medicamentos e profissionais, a embarcação leva informação, prevenção e cuidado. A experiência relatada pelas farmacêuticas evidencia que, mesmo diante de barreiras geográficas, é possível construir uma assistência baseada nos princípios da integralidade e da equidade, respeitando a cultura e os modos de vida das populações ribeirinhas.
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