Em Sergipe, homenagem a líder da profissão farmacêutica impulsiona debates
II Fórum Sergipano de Ensino e Prática Farmacêutica reuniu dirigentes, professores, profissionais e estudantes para discutir futuro da profissão.
Em Sergipe, o reconhecimento à trajetória de Walter Jorge João, marcada pela mobilização que contribuiu para afirmar as farmácias como estabelecimentos de saúde, abriu caminho para uma discussão decisiva: que formação os farmacêuticos precisam receber para responder aos desafios atuais da profissão e às necessidades da população?
Na sexta-feira (11/9), o presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF), Walter Jorge João, recebeu o título de Cidadão Sergipano, em solenidade realizada na Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese). No sábado (12/9), participou da abertura do II Fórum Sergipano de Ensino e Prática Farmacêutica, promovido pelo Conselho Regional de Farmácia de Sergipe (CRF-SE), na Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Reconhecimento a uma história de mobilização
Paraense de nascimento, Cidadão Amapaense por reconhecimento, (o título foi concedido em 2023, pela Assembleia Legislativa do Estado), Walter Jorge João recebeu a cidadania sergipana pelos laços construídos com os farmacêuticos e com o estado. Mais que um reconhecimento pessoal, a homenagem destacou sua trajetória de mobilização coletiva pela valorização da profissão.
Autor da proposta, o deputado estadual Georgeo Passos atendeu a uma sugestão do ex-presidente do CRF-SE Carlos Eduardo, conhecido como Cadu. “Walter Jorge João é conhecido não apenas como farmacêutico, mas também como educador, cientista, dirigente, líder classista e defensor da saúde pública e da valorização da profissão farmacêutica”, discursou o parlamentar.
Entre as contribuições que motivaram a homenagem está a participação decisiva de Walter Jorge João na articulação pela aprovação da Lei nº 13.021/2014, que reconheceu as farmácias como estabelecimentos de saúde. Durante aquela mobilização, partiu dele a proposta de criação de um fórum nacional de luta pela valorização da profissão, reunindo entidades farmacêuticas e profissionais de todo o país em torno da aprovação da lei.
“Trazer o Dr. Walter para receber o título de Cidadão Sergipano é muito importante e uma grande satisfação. É uma singela retribuição a tudo o que ele tem feito pela profissão no Brasil e, especialmente, em Sergipe”, declarou Cadu.
O professor Wellington Barros, paraense radicado em Sergipe, também ressaltou o alcance dessa atuação. “Temos, como sergipanos e farmacêuticos, a figura do Dr. Walter, essa grande liderança que tem feito tanto pela Farmácia brasileira e pela Farmácia sergipana”, disse. Ele destacou ainda as afinidades culturais entre os dois estados e a relação construída pelo presidente do CFF com os profissionais sergipanos.
Para o presidente do CRF-SE, Daniel Andrade, a honraria traduz o reconhecimento dos farmacêuticos do estado e reforça uma parceria que tem contribuído para a qualificação profissional em Sergipe.
A conselheira federal de Farmácia pelo estado, Fátima Aragão, destacou que esse reconhecimento ultrapassa as fronteiras sergipanas. “É uma pessoa muito atuante, de méritos inegáveis. Seu reconhecimento é necessário país afora, não apenas em Sergipe”, afirmou.
Walter Jorge João agradeceu a acolhida e recebeu o título como uma responsabilidade a mais em sua trajetória. “Mais do que uma distinção protocolar, esta honraria sela laços construídos ao longo de uma trajetória dedicada à profissão farmacêutica. A partir de agora, ostento com muito orgulho e responsabilidade o título de Cidadão Sergipano”, declarou.
Ao final, resumiu o sentimento daquele momento: “Sou do Norte, sou do Pará e agora posso dizer: sou cidadão sergipano, graças a Deus”.
Que farmacêutico o Brasil precisa formar?
No dia seguinte, o olhar se voltou para o futuro. O II Fórum Sergipano de Ensino e Prática Farmacêutica reuniu dirigentes, professores, profissionais e estudantes para discutir os avanços científicos na dispensação de medicamentos e a revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) dos cursos de Farmácia.
O CFF teve participação ativa na promoção do debate que resultou na construção das diretrizes aprovadas em 2017. O Conselho promoveu duas rodadas de encontros regionais, ouvindo professores, estudantes, profissionais e entidades farmacêuticas até chegar a uma proposta capaz de reunir diferentes perspectivas sobre a formação.
As DCNs de 2017 romperam com um modelo excessivamente concentrado nas disciplinas químicas e estruturaram a graduação em três grandes eixos: cuidado, tecnologia e inovação e gestão em saúde.
“Precisávamos formar um profissional com visão de comunidade. Depois de quase dez anos dessas diretrizes, chegou o momento de discutir o que precisa ser revisto”, defendeu Walter Jorge João.
Segundo o presidente do CFF, a intenção é retomar a mesma estratégia de construção coletiva, ampliando o diálogo em busca de um consenso sobre a formação farmacêutica de que o país necessita.
Um dos pontos sensíveis dessa revisão é o ensino a distância. O tema foi discutido na mesa realizada após a abertura do Fórum. O CFF tem posição pública sobre a questão: a formação farmacêutica deve preservar a base científica, as atividades práticas supervisionadas, o contato com os pacientes e elevados padrões de qualidade.
O Conselho não é contrário às tecnologias, mas entende que a flexibilização excessiva do ensino a distância pode comprometer o desenvolvimento das competências necessárias ao exercício profissional. Por isso, a discussão não se limita à defesa da categoria. Envolve a qualidade da assistência e a segurança das pessoas que serão atendidas pelos futuros farmacêuticos.
O professor Wellington Barros destacou que Sergipe já transforma conhecimento em prática, com experiências pioneiras em consultórios farmacêuticos, cuidado domiciliar e assistência farmacêutica. “Sergipe é um estado pequeno, mas é um estado ousado”, resumiu.
A programação contou com palestra do professor Divaldo Lyra Júnior, da UFS, sobre os avanços científicos na dispensação de medicamentos e sua aplicação no mundo real. O pesquisador dedica grande parte de sua trajetória ao ensino e à qualificação desse serviço. Organizou, com Tatiane Cristina Marques, o livro As bases da dispensação racional de medicamentos para farmacêuticos e foi um dos idealizadores do curso Dispensar, capacitação do CFF voltada ao aprimoramento e à profissionalização da dispensação de medicamentos. Ao recuperar a origem de projetos nacionais de qualificação, ele lembrou uma demanda concreta dos profissionais: “Os farmacêuticos do SUS queriam aprender a dispensar”.
Divaldo defendeu uma formação ligada às necessidades da população e colocou o paciente no centro do debate. “Não é capricho, é responsabilidade social. A nossa profissão existe por causa do paciente, e é para ele que temos de melhorar”, afirmou.
O Fórum contou ainda com uma mesa sobre as novas Diretrizes Curriculares Nacionais e as contribuições de Sergipe, com os professores Divaldo Lyra Júnior, Cínthia Meireles, da Universidade Tiradentes (Unit-SE), e Alfredo Oliveira Filho, da UFS.