Saúde Indígena: protagonismo da assistência farmacêutica em aldeias de MS é reconhecido pelo CFF

Voluntários que trabalham na reserva Indígena de Dourados, considerada a maior reserva indígena urbana do Brasil atendem populações das etnias Guarani Kaiowá e Terena

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“Quando uma epidemia avança, medicamentos não chegam às comunidades por acaso. Eles chegam porque profissionais planejam, organizam, coordenam e trabalham incansavelmente para que o cuidado aconteça”. Essa reflexão foi exposta pela farmacêutica Fabiana Vicente de Paula, conselheira federal suplente pelo estado de Mato Grosso do Sul ao falar sobre o trabalho realizado por ela e um grupo de farmacêuticos voluntários durante a epidemia de chikungunya nas aldeias indígenas no município de Dourados (MS).  

Pela participação nesta importante missão, os profissionais foram agraciados com menção honrosa durante a 571º Reunião Plenária do Conselho Federal de Farmácia (CFF), realizada em Campo Grande (MS), de 23 a 25 de setembro. Mais do que relatar uma operação logística em meio a uma crise sanitária, a apresentação evidenciou o papel estratégico da Assistência Farmacêutica na garantia do cuidado às populações indígenas da Reserva de Dourados, uma das regiões mais impactadas pela epidemia de chikungunya em Mato Grosso do Sul.  

A Reserva Indígena de Dourados, considerada a maior reserva indígena urbana do Brasil, abriga populações das etnias Guarani Kaiowá e Terena e convive com desafios históricos relacionados à vulnerabilidade social e sanitária. Nesse território, a assistência à saúde é realizada por seis Unidades Básicas de Saúde Indígena (UBSI), vinculadas ao Polo Base Dourados.  

Fabiana de Paula explica que, quando os casos de chikungunya começaram a crescer rapidamente, a realidade das aldeias exigiu uma resposta imediata. “A elevada demanda por atendimento pressionou as equipes de saúde e tornou necessária uma profunda reorganização dos serviços, mobilizando diferentes instituições em uma grande força-tarefa”, afirma.  

Os números demonstram a dimensão do desafio. Em Dourados, foram registrados 5.294 casos prováveis e 4.822 casos confirmados da doença. Entre a população indígena, o cenário também foi alarmante, com 2.356 casos prováveis e 2.185 confirmações, representando uma parcela significativa dos atendimentos relacionados à epidemia.  

Diante desse quadro, a atuação da Assistência Farmacêutica ganhou protagonismo. Sob a coordenação da Dra. Fabiana, foram desenvolvidas ações fundamentais para assegurar que nenhum paciente ficasse sem acesso aos medicamentos necessários. O trabalho envolveu o planejamento da demanda de acordo com a evolução da epidemia, a organização da logística de recebimento, armazenamento e distribuição dos insumos, o abastecimento contínuo das seis UBSIs e a montagem diária de caixas de medicamentos destinadas às equipes da Força Nacional do SUS que atuavam nas aldeias.  

A resposta exigiu grande articulação institucional. Houve integração com a Força Nacional do SUS, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Distrito Sanitário Especial Indígena de Mato Grosso do Sul (DSEI-MS), a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), com o Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul (CRF-MS), a Secretaria de Estado de Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde de Dourados, com o Hospital Universitário Brasil e a indústria farmacêutica. Essa mobilização conjunta foi essencial para garantir o fornecimento dos medicamentos considerados essenciais.  

Desafios  

Entre os maiores desafios enfrentados esteve a necessidade de disponibilizar medicamentos para o controle da dor intensa, uma das marcas da chikungunya. Alguns desses medicamentos, incluindo opioides, não faziam parte da padronização habitual da Assistência Farmacêutica, mas se mostraram indispensáveis para aliviar o sofrimento dos pacientes acometidos pela doença. A obtenção desses itens e a organização de fluxos seguros para seu armazenamento e distribuição exigiram planejamento técnico e capacidade de articulação.  

Outro diferencial da experiência foi a utilização de uma metodologia de cálculo para estimar a necessidade de medicamentos. A equipe considerou a população atendida, a taxa de positividade da doença, o número estimado de casos, as diferentes fases clínicas da chikungunya e a indicação terapêutica de cada medicamento. A estratégia permitiu prever demandas e evitar desabastecimentos em um momento crítico da emergência sanitária.  

“Por trás de cada caixa organizada, de cada remessa distribuída e de cada estoque monitorado, havia pessoas enfrentando dores incapacitantes, limitações físicas e incertezas. Nas aldeias indígenas, onde as dificuldades de acesso aos serviços de saúde frequentemente se somam às vulnerabilidades sociais, garantir o tratamento significou preservar a dignidade de centenas de famílias em um momento de extrema fragilidade”, explica a farmacêutica.  

 

Experiência foi apresentada pela farmacêutica Fabiana Vicente de Paula,
conselheira federal suplente pelo Mato Grosso do Sul

 

A experiência relatada por Fabiana Vicente de Paula mostrou que a atuação farmacêutica vai muito além da gestão de medicamentos. Ela envolve planejamento, liderança, tomada de decisões, trabalho em equipe e, acima de tudo, compromisso com as pessoas. Em uma emergência sanitária, assegurar que o medicamento certo chegue ao paciente certo, no momento certo, é uma ação que pode aliviar sofrimento, reduzir complicações e fortalecer a confiança das comunidades nos serviços de saúde.  

Como destacou a farmacêutica ao encerrar sua apresentação, a chikungunya deixou marcas profundas em muitos pacientes, mas também trouxe aprendizados. A experiência reforçou a convicção de que a técnica salva vidas, enquanto a humanidade dá sentido ao trabalho realizado. Uma lição que permanece como legado de um dos maiores desafios de saúde pública enfrentados recentemente nas aldeias indígenas de Dourados.